quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Após fuga, testemunha do caso Bruno relata ameaça de policial





Jailson denunciou um suposto plano arquitetado por Bola, Bruno e Macarrão para executar cinco pessoas - Foto: Ney Rubens/Especial para Terra

O detento Jailson Alves de Oliveira, que denunciou um suposto plano para matar pessoas ligadas ao assassinato de Eliza Samudio, prestou depoimento na terça-feira para justificar sua fuga do Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp), em Belo Horizonte (MG), ocorrida no último dia 17 de julho. Na versão de Jailson, ele teria sido ameaçado por um suposto policial civil que queria favorecer o ex-colega Marcos Aparecido dos Santos, o Bola.

Em julho, Jailson denunciou que Bola teria armado um plano, junto com o ex-goleiro Bruno e Luiz Henrique Ferreira Romão, o Macarrão, para matar cinco pessoas, entre elas a juíza Marixa Fabiane Lopes Rodrigues, do Fórum de Contagem. Na versão apresentada ontem, em depoimento, o detento afirmou que o policial civil - que não teve sua identidade divulgada - teria lhe dado três opções: se retratar sobre as denúncias, fugir da cadeia ou morrer. Diante das ameaças, ele decidiu fugir do Ceresp. Jailson foi recapturado um dia depois, em Guanhães, no leste de Minas.

Oliveira foi intimado a depor pelo juiz Wagner Cavalieri, da Vara de Execuções Criminais de Contagem. De acordo com a assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, o magistrado irá analisar se houve falta grave do detento, o que poderia prejudicar a execução de sua pena. Jailson foi condenado a 30 anos de prisão por latrocínio e esteve preso com Bola, de quem teria ouvido confissões sobre a morte de Eliza Samudio.

O processo sobre a fuga será enviado, agora, ao Ministério Público. O juiz também remeteu uma cópia do depoimento para a corregedoria da Polícia Civil, já que há menção a um suposto agente da corporação.

A denúncia
Jailson denunciou que Bola havia elaborado um plano, com a participação de Bruno e Macarrão, para assassinar cinco pessoas. As supostas vítimas seriam a juíza Marixa; o delegado Edson Moreira, chefe do Departamento de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa de Belo Horizonte (DHPP); o deputado estadual Durval Ângelo (PT-MG); o advogado José Arteiro Cavalcante Lima, representante da mãe de Eliza Samudio, Sônia de Fátima Moura; e também o advogado Ércio Quaresma, ex-defensor do goleiro e atual advogado de Bola. Segundo Jailson, o traficante Nem seria contratado para as execuções.

O caso Bruno
Eliza desapareceu no dia 4 de junho de 2010 quando teria saído do Rio de Janeiro para Minas Gerais a convite de Bruno. No ano anterior, a estudante paranaense já havia procurado a polícia para dizer que estava grávida do goleiro e que ele a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos. Após o nascimento da criança, Eliza acionou a Justiça para pedir o reconhecimento da paternidade de Bruno.

No dia 24 de junho, a polícia recebeu denúncias anônimas de que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. Na noite do dia 25 de junho, a polícia foi ao local e recebeu a informação de que o bebê apontado como filho do atleta, então com 4 meses, estava lá. A então mulher do goleiro, Dayanne Rodrigues do Carmo Souza, negou a presença da criança na propriedade. No entanto, durante depoimento, um dos amigos de Bruno afirmou que havia entregado o menino na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, onde foi encontrado.

Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza seguindo denúncias anônimas, em entrevista a uma rádio no dia 6 de julho, um motorista de ônibus disse que seu sobrinho participou do crime e contou em detalhes como Eliza foi assassinada. O menor citado pelo motorista foi apreendido na casa de Bruno no Rio. Ele é primo do goleiro e, em dois depoimentos, admitiu participação no crime. Segundo a polícia, o jovem de 17 anos relatou que a ex-amante de Bruno foi levada do Rio para Minas, mantida em cativeiro e executada pelo ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola ou Neném, que a estrangulou e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães.

No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Pouco depois, Flávio Caetano de Araújo, Wemerson Marques de Souza, o Coxinha Elenilson Vitor da Silva e Sérgio Rosa Sales, outro primo de Bruno, também foram presos por envolvimento no crime. Todos negam participação e se recusaram a prestar depoimento à polícia, decidindo falar apenas em juízo.

No dia 30 de julho, a Polícia de Minas Gerais indiciou todos pelo sequestro e morte de Eliza, sendo que Bruno foi apontado como mandante e executor do crime. Além dos oito que foram presos inicialmente, a investigação apontou a participação de uma namorada do goleiro, Fernanda Gomes Castro, que também foi indiciada e detida. O Ministério Público concordou com o relatório policial e ofereceu denúncia à Justiça, que aceitou e tornou réus todos os envolvidos. O jovem de 17 anos, embora tenha negado em depoimentos posteriores ter visto a morte de Eliza, foi condenado no dia 9 de agosto pela participação no crime e cumprirá medida socioeducativa de internação por prazo indeterminado.

No início de dezembro, Bruno e Macarrão foram condenados pelo sequestro e agressão a Eliza, em outubro de 2009, pela Justiça do Rio. O goleiro pegou quatro anos e seis meses de prisão por cárcere privado, lesão corporal e constrangimento ilegal, e seu amigo, três anos de reclusão por cárcere privado. Em 17 de dezembro, a Justiça mineira decidiu que Bruno, Macarrão, Sérgio Rosa Sales e Bola serão levados a júri popular por homicídio triplamente qualificado, sendo que o último responderá também por ocultação de cadáver. Dayanne, Fernanda, Elenilson e Wemerson também irão a júri popular, mas por sequestro e cárcere privado. Além disso, a juíza decidiu pela revogação da prisão preventiva dos quatro. Flávio, que já havia sido libertado após ser excluído do pedido de MP para levar os réus a júri popular, foi absolvido. Além disso, nenhum deles responderá pelo crime de corrupção de menores.

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