quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Com bastões, seguranças vigiam Cracolândia: 'pior que guerra'




Três seguranças trabalham na Cracolândia e ganham R$ 1,5 mil cada um
Foto: Adriano Lima/Terra

Comerciantes da região da Estação da Luz, no centro de São Paulo, não puderam mais esperar o poder público e tiveram que agir drasticamente para conter os usuários de drogas que tomam conta da área, conhecida como Cracolândia. Para evitar as recorrentes tentativas de roubo a seus estabelecimentos, garantir a segurança dos clientes e até mesmo manter as lojas limpas, os proprietários optaram por uma atitude drástica: contrataram seguranças que, armados com tacos de beisebol e cassetetes, tentam manter os "noias", como são conhecidos os usuários de crack, à distância.

A medida está longe da ideal, mas é necessária, de acordo com os próprios comerciantes, que alegam ter de fazer sozinhos o que a administração pública deveria fazer por eles. "Você paga imposto para ter segurança, para ter limpeza. Eu mando limpar essa rua todo dia pela manhã. Fico indignado, mas vou fazer o quê?", afirmou o dono de um estabelecimento na rua dos Gusmões, que preferiu não se identificar.

Três seguranças fazem vigia da região da Cracolândia - todos contratados por um grupo de comerciantes. Cada um fatura cerca de R$ 1,5 mil por mês e tem direito a uma folga por semana. Para os contratantes, o valor é justificável: "pago isso para não ter problema. Para meus clientes entrarem e saírem da loja a hora que quiserem. Não tem outra solução. Não apoio isso. Os seguranças não estão aqui para bater e nem batem. Eles (usuários) só querem saber de pedra, droga", afirmou o comerciante ouvido pelo Terra.

Um dos seguranças contratados, que também não se identificou, afirmou que o grande segredo para manter tudo sob controle é impondo respeito junto aos "noias". Apesar de estarem armados com bastões e cassetetes, ele garante que a violência não é usada para conter os usuários de drogas, mas somente para colocar ordem no local. "Nem em um campo de guerra deve ser desse jeito. O negócio aqui é 'trampo' doido. Se eles chegam fazem aquela 'lixaiada' toda, arrombam as lojas com pé de cabra, fazem as necessidades na porta dos caras e por isso eles contratam a gente. Mas é sem violência. Eles já estão ligados que a gente está aqui, colocamos respeito", afirmou.

O segurança também disse que não teme pela vida, e acredita que o momento mais complicado da "operação" acontece quando um novo segurança é contratado. "A maioria me conhece e eu conheço a maioria, mas quando chega segurança novo, tem que ficar aqui com a gente para (o usuário) se acostumar com a pessoa. Porque se ele estranhar, o barato fica doido. Estando comigo não tem nada", afirmou. Ele conta que jamais sofreu violência, mas que testemunhou diversas situações, como facadas. "Eles não nos agridem, já com a polícia...quando estão todos juntos não é ruim, o problema é quando está vazio. Se eles não estão aqui estão do outro lado fazendo coisa errada. Se ficarmos 'tocando' pra lá e pra cá eles ficam nervosos. Já vi jogar pedra em polícia, já vi polícia perder arma por causa deles. Eles vão para cima, sem medo porque não têm nada a perder".

Por outro lado, um dos usuários de drogas que vive na região confessou já ter apanhado dos seguranças diversas vezes. "Eles batem na gente. Já tomei muita paulada, porque o índice de roubo é muito alto. Ali na rua do Triunfo, nas lojas, restaurantes, eles batem mesmo. Começam 18h30, 19h e vão até 7h da manhã", afirmou.

A chamada Operação Cracolândia foi intensificada no início de janeiro deste ano. Porém, apesar dos esforços do poder público, unindo as secretaria de Saúde, de Justiça e Cidadania, e de Segurança, na opinião do segurança não houve muito avanço na solução do problema. "Melhorou muito pouco. Isso não é um problema da polícia. É um problema do governo. A tendência é aumentar porque o viciado não para. Ele será sempre viciado. Muitos vão para clínicas, mas voltam. Algumas igrejas vêm aqui e ajudam muito. Se você vier aqui na quinta e sexta-feira eles dão alimento, estacionam os carros e distribuem alimento. Quando está muito frio trazem até cobertor", disse o segurança.

O comerciante entrevistado pelo Terra confirmou a versão do segurança e disse que as igrejas, seja evangélica, católica ou espírita, ajudam bastante os dependentes químicos, mas que os donos dos estabelecimentos têm que tentar manter a ordem, para que a freguesia não deixe de aparecer.

"Se eu não pagar, eles vão fazer o que quiserem. Nem os responsáveis dessa área de direitos humanos sabem a solução, ninguém dá solução. E nós comerciantes ficamos a mercê desses caras, fora o prejuízo que temos. Quando enche de usuários o pessoal tem medo, mas quem vem pela primeira vez aqui fica chocado. Falar até papagaio fala. Ou tomam uma providência ou vai ficar nisso. A eleição está aí novamente e ninguém fala nada de dar uma solução", completou o comerciante.

Por THIAGO TUFANO - Direto de São Paulo




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