quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Austrália: 'falta de memória' de policiais irrita juíza do Caso Laudisio






Eric Lim (ao centro, de uniforme) falou sobre a abordagem ao brasileiro
Foto: Liz Lacerda/Especial para Terra

LIZ LACERDA

Direto de Sydney

O brasileiro Roberto Laudisio Curti recebeu pelo menos cinco disparos de armas de choque (taser) aplicadas diretamente sobre seu corpo, enquanto se contorcia de dor e gritava desesperadamente, já derrubado em uma calçada no centro de Sydney.

Durante a abordagem final da polícia, também é possível ouvir alguém gritando "taser again" ("taser de novo") e a risada de um policial. As cenas foram mostradas no terceiro dia de depoimentos do inquérito que pretende apurar as causas da morte do brasileiro.

Laudisio morreu no dia 18 de março, após poucos minutos, ainda sob custódia da polícia australiana. Em função do impacto das imagens e do áudio, o vídeo não será liberado pela Corte.

Apesar de reconhecer que o uso repetido do taser não é recomendado, o policial Eric Lim justificou seus dois disparos, dizendo que estava preocupado com a segurança dele próprio e dos outros policiais envolvidos na ação. Durante o interrogatório, ele negou qualquer preocupação com a saúde de Roberto Laudisio.

A policial Annalese Ryan, que também prestou depoimento nesta quarta-feira, admitiu ter colocado o pé nas costas do brasileiro, enquanto outros policiais cercavam Laudisio. Ela negou que tenha chutado o estudante, desmentindo uma testemunha. "Eu estava tentando ajudar os colegas a manterem o rapaz no chão", explicou.

Entre contradições e falta de memória, os cinco policiais apresentaram quase a mesma história para esclarecer os acontecimentos que resultaram na morte de Laudisio. As frases mais ouvidas na Corte foram "não lembro", "não vi", "não ouvi" e "não tenho certeza". Ao fim do depoimento de um dos policiais, a juíza Mary Jerram, responsável pela análise do caso, desabafou no microfone: "talvez algumas testemunhas pensem que a magistrada é estúpida".

A família Laudisio está acompanhando os depoimentos na Corte, juntamente com representantes do Consulado-Geral do Brasil em Sydney. Revoltado, Domingos Laudisio, tio do estudante, afirmou: "Isso é uma absoluta falta de integridade".

Na noite anterior à morte, Laudisio dividiu um comprimido de LSD com outros dois amigos. Segundo o psiquiatra Jonathan Phillips, que também prestou depoimento, a dose teria sido suficiente para provocar um estado psicótico e delirante no rapaz. "Ele estava fora da realidade, irracional, paranoico e com medo. Percebeu aquele grupo de policiais como uma ameaça à sua vida", explicou. O médico acrescentou, ainda, que as atitudes de Laudisio seriam imprevisíveis e que os policiais não tinham nenhuma maneira de analisar as condições mentais do brasileiro durante a perseguição.

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