sexta-feira, 26 de outubro de 2012

DE OLHO EM VALÉRIO: TRANSFERÊNCIA DE BENS É INVESTIGADA






NO RASTRO DOS BENS DE VALÉRIO

Com patrimônio bloqueado, operador do mensalão comprou duas casas e carro no nome da filha

BELO HORIZONTE A Procuradoria Geral da República (PGR) aguarda o fim do julgamento do mensalão para investigar as circunstâncias em que Marcos Valério, o operador do esquema, comprou duas casas milionárias no bairro da Pampulha, em Belo Horizonte, e registrou em nome da filha mais velha, que hoje tem 21 anos e é estudante de psicologia na capital mineira. Como mostrou O GLOBO em agosto, as casas valem pelo menos R$ 1 milhão, cada, e não integram a lista de bens de Valério bloqueados pela Justiça.

E este não é o único bem registrado recentemente em nome da filha. Há pouco mais de um mês, quando já estava condenado pelo STF por corrupção ativa, peculato e lavagem de dinheiro, Valério comprou um veículo Kia Cerato, modelo 2013, por R$ 63,5 mil, e registrou em nome da mesma filha. Atualmente, o veículo é usado pela mulher de Valério, Renilda Santiago, como constatou esta semana O GLOBO.

Registrar imóveis em nome da filha, em si, não é fraude. Mas é preciso verificar se a filha tinha meios de adquirir aqueles imóveis - disse o procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Para ele, é preciso "esperar que esta fase do julgamento acabe" para tomar qualquer tipo de providência efetiva em relação ao tema.

- Sempre se terá que demonstrar a real propriedade. Se realmente os bens forem dele, há como se tentar (a inclusão das novas propriedades no bloqueio de bens já determinado pela Justiça) - disse o chefe do Ministério Público.

Valério: multa já chega a R$ 2,8 milhões

Os ministros do Supremo já decidiram que os bens de Valério devem ser usados para ressarcir os cofres públicos, mas os valores só serão estipulados ao fim da ação penal. Será preciso confirmar que os bens estão direta ou indiretamente relacionados à prática dos crimes ligados à lavagem de dinheiro.

Independentemente disso, é certo que Valério deverá desembolsar recursos, em função das penas que recebeu. Cálculo preliminar das condenações no STF aponta o pagamento de multa de quase R$ 2,8 milhões. Este valor também será confirmado ao fim do julgamento. A terceira investida sobre os bens de Valério poderia ocorrer por meio de um pedido da PGR de fixação de indenizações ao poder público pelos condenados no processo, alternativa ainda em estudo.

O Kia Cerato foi comprado por Valério em uma concessionária em Belo Horizonte perto da casa onde vivia até pouco tempo com Renilda. Pelo interfone, Renilda informou que Valério não mora mais na casa. No entanto, mesmo à distância, ele mantém vínculo com a família. Ontem, um funcionário dele chegou na residência para levar roupas sujas do operador do mensalão, que foram entregues à empregada. Em outros dias, o funcionário buscou contas e levou documentos para a mulher de Valério.

Localizada no Bairro São Luiz, a casa onde a família de Valério vive é uma das que foram adquiridas recentemente e não está bloqueada pela Justiça. As duas propriedades são luxuosas, têm dois andares, piscinas, estacionamento para veículos e estão protegidas por muros altos, com direito a guarita de segurança e câmeras de vigilância. Estão a poucos metros uma da outra e no vetor norte de Belo Horizonte, região em franca valorização por causa da proximidade com Cidade Administrativa do governo de Minas, construída recentemente.

Os outros bens de Valério também estão registrados em nome da filha, mas, como também estão vinculados a registros de usufruto de Valério e sua esposa Renilda, foram bloqueados pela Justiça. E não apenas em função da determinação do ministro Joaquim Barbosa, que solicitou a medida em 2005, em razão de ação cautelar proposta no STF pelo Ministério Público Federal. Nos registros de imóveis, há menção a ações contra Valério nas cidades mineiras de Sete Lagoas, Contagem e Brumadinho, com pedido de sequestro de bens.

Oficialmente, o operador do mensalão tem uma sala comercial no bairro Santo Antônio, um terreno de 11 mil metros quadrados com galpão onde funciona uma floricultura no Bairro Bandeirantes, uma casa no Bairro Castelo (onde morava quando o mensalão foi descoberto), e um apartamento no bairro de classe média Padre Eustáquio, comprado em 1993, com a ajuda de um financiamento. A medida judicial não impede Valério de alugar seus imóveis.

Uma pessoa muito próxima do operador do mensalão, que esteve com ele no início da semana, disse que ele já demonstrava estar conformado com a aplicação de pena que poderia chegar a 30 anos de prisão. No entanto, ainda assim Valério demonstra bastante abatimento em função do resultado final do julgamento.

Autor(es): Thiago Herdy -O Globo 


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