sábado, 13 de outubro de 2012

Resistência seguida de morte é disfarce para execuções em SP





No auge da ‘ameaça comunista’, resistência de bandidos era simulada para justificar mortes

Bruno Paes Manso, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Em maio de 1970, o tenente da Polícia Militar Alberto Mendes Júnior foi assassinado a coronhadas pelos guerrilheiros do grupo de Carlos Lamarca depois de cair em uma emboscada no Vale do Ribeira. A informação só chegou ao Exército quatro meses depois, quando um integrante do grupo esquerdista foi torturado e apontou aos militares o local onde estava o corpo do oficial.

A “ameaça comunista” estava no auge. Um dos responsáveis pelo cerco mal sucedido a Carlos Lamarca era o coronel do Exército Erasmo Dias. Em companhia do delegado Sérgio Paranhos Fleury, ele foi peça-chave no combate à guerrilha urbana. Três anos depois, em 1974, Dias assumiria a Secretaria de Segurança para combater crime comum. Os bandidos seriam seus novos inimigos e alvos. A tortura e os assassinatos continuariam sendo as ferramentas de trabalho de alguns policiais.

“Desde aqueles anos, as simulações de resistências seguidas de morte se tornariam uma das formas de disfarçar execuções”, afirma Ivan Seixas, que hoje preside uma entidade de direitos humanos. Em abril de 1971, aos 16 anos, Ivan foi preso com o pai, o operário Joaquim Alencar Seixas, do Movimento Revolucionário Tiradentes. Ambos foram levados ao Destacamento de Operações e Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), formado por integrantes do Exército e das Polícias Civil e Militar. O pai de Ivan foi morto no dia seguinte, durante sessões de tortura. Oficialmente, policiais informaram que ele havia morrido em um tiroteio no dia anterior.

A caçada aos bandidos comuns, iniciada pelo esquadrão da morte no fim de 1968 e adaptada na luta contra a guerrilha, levaria tensão e medo para as periferias em formação ao longo da década de 1970. Os novos agentes dos homicídios seriam grupos de policiais militares.

O enfrentamento era incentivado pelo secretário Erasmo Dias, que premiava com medalhas e elogios PMs envolvidos em tiroteio, como conta o coronel João Pessoa Nascimento.

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