sábado, 3 de novembro de 2012

Alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Ar, em Barbacena, encaram dura rotina




Quase 600 jovens de todo o país que querem se tornar pilotos dão duro para realizar o sonho de piliotar aviões

Para entrar na Epcar, jovens de 14 a 18 anos enfrentam vestibulinho, que neste ano teve 49,5 candidatos por vaga, e cumprem rotina dura de hierarquia e treinamento

Barbacena – Às 22h, a luz dos alojamentos se apaga e é dado o toque de silêncio. De repente, em uma das dezenas de camas precisamente alinhadas, sob seu cobertor, um aluno solta um choro baixo, abafado. Vez por outra a cena se repete, principalmente entre novatos. Muitos sentem falta da família, do quarto bagunçado, de ficar acordado até tarde. Alguns desistem, mas outros – a maioria – acabam gostando da rotina rigorosa e continuam a perseguir o sonho. Querem ser pilotos. São estudantes da única instituição que, além de oferecer os três anos do ensino médio, é uma porta de entrada para a Força Aérea Brasileira: a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar), localizada em Barbacena, no Campo das Vertentes, a 173 quilômetros de Belo Horizonte.

O grande objetivo de quem se matricula na Epcar é ingressar na Academia da Força Aérea (AFA), instalada em Pirassununga, no interior de São Paulo. A escola acolhe jovens entre 14 e 18 anos, apenas rapazes, que precisam ser aprovados nos testes de português e matemática do exame de admissão, o “vestibulinho”. A concorrência é sempre alta. Neste ano, 10.654 candidatos disputaram 215 vagas – 49,5 por vaga. Ainda que já tenha concluído o ensino médio em uma escola civil, o aluno precisa começar novamente pelo primeiro dos três anos, chamados de esquadrões no jargão militar.

Hoje, a instituição soma 596 alunos, em regime de internato. Matheus Lima, de 17 anos, é um deles. Em uma tarde, sua turma esperava ser autorizada a entrar no refeitório para almoçar. Como é de praxe, todos estavam em formação, enfileirados, as mãos às costas, o corpo rijo e ereto, o semblante sério, os olhos fixos em algum ponto adiante. A expressão dura de Matheus parecia indiferente a tudo o que ocorria em redor. Não seria surpresa se falasse de forma fria, maquinal, quase robótica. Relaxado, porém, o rapaz tem voz mansa, olhar doce e sincero. E sente saudade da família. “Sinto muita, principalmente quando fico mais de um mês sem voltar pra casa”, revelou, sentado em um banco, mexendo em seu chapéu bibico azul.

O rapaz é de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, onde morava com os pais e uma irmã. Começou a se apaixonar por aviação na infância. O pai era mecânico de avião civil e o garoto o acompanhava nos aeroportos. “Sempre tive vontade de pilotar, mas, para ser piloto civil, custa muito caro, tem que fazer várias horas de voo”, constatou. Não foi só por isso que se resolveu pela Aeronáutica. “Já tinha admiração pelo militarismo, pela disciplina. Adoro marchar, usar a farda”.

Ele é o mais bem avaliado entre os alunos do 1º ano do ensino médio. Na vasta cadeia de lideranças da Epcar, ele é o que chamam de 01 – pronuncia-se “zero um”. O excelente desempenho rende privilégios. Todos os alunos, inclusive os dos outros anos, devem lhe prestar continência. Usa fardamento especial e bibico de oficial, que é azul e tem um fio prateado. No começo, porém, foi difícil enquadrar-se nas novas exigências. Sobretudo no período de adaptação por que passam todos os calouros, que dura cerca de 15 dias. “Achei meio puxado. A maior dificuldade foi acordar cedo, controlar os horários”, recorda. Na escola, às 6h em ponto um corneteiro anuncia que todos devem se erguer. Antes de deixarem o alojamento, tudo deve estar impecavelmente forrado e dobrado.

Matheus costuma estudar depois do jantar, entre 19h e 20h. No alojamento, antes de dormir, engraxa os sapatos e alisa as vestes com ferro de passar. Só visita Uberlândia em feriados prolongados. Os fins de semana em Barbacena são pouco movimentados, já que “na cidade não tem muito o que fazer para quem é menor de idade”, observa. “Do que a gente mais gosta é comer algo diferente. Às vezes, a comida daqui (Epcar) não é muito boa”, avalia, encabulado.

Exigências 


Disciplina para voar

Aos finais de semana, apenas os alunos de bom comportamento têm concessão para pernoitar fora da escola. Leidson de Oliveira, de 19 anos, sempre aproveita para reencontrar a família na vizinha cidade de Alfredo Vasconcelos, a 13 quilômetros de Barbacena. Em casa, gosta de andar sem camisa – o que não é permitido na Epcar – e de ficar sozinho no quarto, usufruindo da privacidade que lhe falta no grande alojamento dividido com dezenas de colegas. Os pais gostam de ver que o rapaz não deixa mais o armário bagunçado. “Mas minha mãe diz que fiquei muito centrado, que não tenho sentimentos”, conta.

Também para Leidson, a adaptação à Epcar foi sofrida. “Pensei que não era para mim. Além de ser muito apegado aos pais e amigos, era acostumado a ver televisão, dormir tarde e acordar a qualquer hora, a fazer o que quisesse”, justifica, tímido, olhando para baixo, esfregando as mãos. Só se apaixonou por aviação depois que entrou na Epcar. O que lhe atraiu ali foi o fato de, segundo ele, os alunos gostarem de aprender e serem muito exigidos, ao contrário do que se passava em seu antigo colégio, onde “as pessoas encaravam os estudos como se fosse obrigação”. Mesmo assim, na escola da Aeronáutica de Barbacena, também há coisas típicas das instituições civis. Em seu tempo livre, Leidson gosta muito de ler romances e livros de história. E os colegas caçoam dele por isso.

Conduta militar

Os alunos da escola estão sujeitos aos valores e regras de conduta fixadas no Estatuto dos Militares, Lei 6.880, de 1980. As “transgressões disciplinares” são corrigidas de acordo com o Regulamento Disciplinar da Aeronáutica (decreto 76.322, de 1975). Cadete é o nome dado a militares em formação para se tornarem oficiais das forças armadas. Na hierarquia de postos e graduações da Aeronáutica, o cadete equipara-se ao segundo sargento. Apesar de ser militar, o aluno da Epcar só se torna cadete após ser selecionado para a AFA, que aplica um exame anual de admissão. Em tese, os formandos da Epcar são os mais bem preparados entre todos os candidatos. Para serem aviadores, têm que passar no teste de aptidão à pilotagem militar. Assim como os demais concorrentes, devem apresentar boas condições de saúde, psicológicas e físicas. Mas gozam do privilégio de não se submeterem ao exame de escolaridade, com provas de português, física, matemática e inglês. Além das disciplinas previstas na Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da educação, o currículo da Epcar inclui matérias puramente militares. As aulas de “conduta social e militar”, por exemplo, explicam os comportamentos adequados ao militar em diferentes situações . “Demonstrar e difundir os sentimentos de amor à Pátria” é mais um dever do aluno. “Muitas vezes, a disciplina é vista de forma pejorativa, mas ela só ajuda a canalizar sua energia para um objetivo”, defende a coordenadora pedagógica da instituição, o tenente-coronel Denise Medeiros.

Alunos do Rio são maioria

Os mineiros não são maioria entre os alunos da Epcar. Os fluminenses costumam conquistar o maior número de vagas, tradição que talvez nasça do fato de as primeiras escolas de aviação militar terem funcionado na cidade do Rio de Janeiro. Em 2011, por exemplo, dos 1.847 que alcançaram a nota de corte do “vestibulinho”, 329 eram daquele estado. Minas somou 84, seguido por Ceará (63), São Paulo (61) e Distrito Federal (21). A convivência com pessoas de todas as regiões do país é um dos aspectos mais proveitosos da estada na escola. É o que atestam Juraci Bispo, de Brasília (DF), e Gabriel Camolez, de Bauru (SP), ambos alunos do 3º ano.

“Sinto falta do aconchego da família. Foi difícil me acostumar. Lá fora, não passava roupa, não engraxava, não acordava tão cedo”, diz Gabriel, de 20 anos. Juraci, de 17, acrescenta: “Com o passar do tempo, a gente vai fazendo amigos, fica mais fácil”. Os dois só se entregam ao carinho dos familiares em feriados prolongados. As folgas em Barbacena, afinal, também podem ser divertidas. “Tem muito lugar pra comer. Tem shows, festas”, diz Gabriel. “Festas a que vamos sempre com a devida autorização do alto comando”, ressalta ele, meio brincalhão, meio sério, lançando um olhar para a chefe da Seção de Comunicação Social da Epcar, o segundo tenente Vanessa Ortolan dos Anjos – diz-se assim mesmo, no masculino –, que acompanhou a conversa.

Além de festas e shows, Barbacena tem garotas. Desde o início da Epcar, em 1949, sabe-se que algumas delas mostram uma quedinha especial por cadetes. Há gerações, ela são chamadas pelos alunos de “cadeteiras”, como as “marias-chuteiras” do futebol. “Hoje, há dois tipos de mulheres na cidade. Algumas não gostam de cadete, porque tem a fama de ser metido, de não querer compromisso, de ficar só por ficar. E há as cadeteiras”, explica Gabriel. Às vezes, a gente é mal visto pelos rapazes da cidade, porque a gente pega as mulheres deles”, acrescenta, lançando outro olhar ao tenente Vanessa. Para diminuir as chances de ciúmes causarem discussões e brigas com jovens civis, passou a ser proibido aos alunos da escola passearem em trajes militares.

Assim como Matheus, Gabriel e Juraci também se destacam entre seus pares. Gabriel foi eleito líder dos alunos do 2º ano, enquanto Juraci é presidente do comitê do código de honra. Ele e os outros 23 membros do comitê devem cuidar para que jamais se desrespeite o código, jurado por todos: “Nós nos comprometemos com a verdade, com a honestidade e com a justiça, bem como repudiamos entre nós atitudes contrárias a essas”. Quem entra na escola logo se depara com os “valores fundamentais” gravados em uma parede, sobre o “sabre alado”, o brasão da Aeronáutica: dignidade acima de tudo, servir por ideal e aprender para liderar.

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