quinta-feira, 1 de novembro de 2012

CPI do Cachoeira termina em 48 dias, e oposição denuncia farsa






Base do governo prevalece, e não haverá tempo para investigações

BRASÍLIA A base governista no Congresso derrotou a oposição e conseguiu estender a CPI do Cachoeira por apenas 48 dias, ou até 22 de dezembro, quando começa o recesso. A oposição desejava prolongar os trabalhos por 180 dias. Os governistas obtiveram assinatura de 223 deputados e 34 senadores - o mínimo era 171 na Câmara e 27 no Senado. Na prática, não haverá mais investigação. O relator da comissão, deputado Odair Cunha (PT-MG), disse que pretende apresentar seu relatório dia 20 de novembro. O prazo inicial de encerramento da comissão seria no próximo domingo, dia 4.

Antes da definição do tempo de prorrogação, a CPI derrubou a preferência de votação de requerimentos que pediam a quebra de sigilos bancários de empresas consideradas fantasmas do esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira - supostamente abastecidas pela Construtora Delta -, provocando a indignação da oposição.

- Enterraram a CPI. Não querem mais investigar nada - disse o deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP).

Bate-boca em torno de Cabral

A discussão na sessão administrativa de ontem foi tensa. O deputado Rubens Bueno (PPS-PR), líder de seu partido na Câmara, insistiu na convocação do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), já rejeitada em sessão anterior, para analisar os contratos do estado com a Delta.

- Quando foi negada a convocação do governador Sérgio Cabral, para mim ele passou a ser o principal suspeito da construtora Delta. O Cabral foi blindado - afirmou Bueno, provocando uma discussão com o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), que saiu em defesa de Cabral.

- Considerei uma leviandade a fala do deputado Rubens Bueno - retrucou Picciani, dedo em riste, gritando com o colega para que ele se calasse: - O governador não foi convocado porque nas milhares de interceptações telefônicas não há nenhuma citação ao nome dele. O que existe é uma relação pessoal do governador com o Fernando Cavendish (ex-dono da Delta).

O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) também disse que a prorrogação da CPI por 48 dias significaria um presente para o ex-proprietário da Delta, e que a população saberá quem são os parlamentares que estão interessados em protegê-lo.

- Quarenta e oito dias é o tempo da farsa porque ninguém vai investigar mais nada - declarou o deputado.

De acordo com Lorenzoni, esses parlamentares vão brindar o Natal em Paris com o empresário - uma referência aos encontros de Cavendish com Cabral na capital francesa e à famosa foto em que o empresário e secretários do governo do Rio aparecem dançando com guardanapos amarrados à cabeça em um restaurante de Paris

- O deputado Picciani é do grupo que blinda a Delta - acusou o deputado do DEM.

- Quero lamentar profundamente o desrespeito do deputado Onyx. Não nos prestamos a blindar quem quer que seja - retrucou Picciani.

Com a prorrogação dos trabalhos só até o fim do ano, e a apresentação do relatório final dia 20 de novembro, a CPI deve ignorar as dezenas de requerimentos de convocação e de quebra de sigilos que aguardam votação. O relator ainda faz mistérios sobre seu parecer final.

Ainda não está certo se o presidente do Congresso, senador José Sarney (PMDB-AP), irá ler o requerimento de prorrogação hoje ou na semana que vem. Porém, isso não afetará o adiamento do final porque, conforme o senador Pedro Taques (PDT-MT), que queria uma dilatação do prazo final por mais 180 dias, é apenas uma questão de publicidade do ato.

Por Chico de Gois

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