quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Críticas à gestão da segurança marcam debate sobre violência




Para os participantes, criminalidade cresce com falhas na lei e erros do poder público
Evento na Folha reuniu ex-secretário, sociólogo e vereadores eleitos, que responderam perguntas da plateia

DE SÃO PAULO

Falta de inteligência e integração entre as polícias, erros da cúpula da Segurança Pública, legislação falha.Essas foram as principais conclusões apontadas por convidados em debate promovido pela Folha ontem sobre a recente onda de violência no Estado.O vereador eleito Ari Friedenbach (PPS), que se envolveu com o tema da segurança após sua filha ser assassinada por um adolescente, em 2003, criticou a investigação policial. Já o advogado Ronaldo Marzagão, secretário da Segurança entre 2007 e 2009, na gestão de José Serra (PSDB), disse que a solução do problema passa por reformas estruturais, inclusive na legislação criminal.O sociólogo Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, disse que o Estado deve ter instituições fortes, que respeitem os direitos humanos e trabalhem de foram articulada. "O modelo é esquizofrênico. Muitas vezes as polícias, o Ministério Público e o Judiciário trabalham em oposição uns aos outros."Para o vereador eleito Conte Lopes (PTB), capitão reformado da Polícia Militar, o Estado falha ao não conseguir conter criminosos que agem mesmo presos, citando a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital)."Como policial, não consigo entender como uma facção pode funcionar dentro da cadeia", afirmou, sobre os casos de ataques a policiais ordenados por chefes presos.Ele recomendou a transferência de chefes do PCC para presídios federais.O debate foi mediado por Mário Cesar Carvalho, repórter especial da Folha. Os participantes também responderam a perguntas da plateia presente no auditório do jornal. Veja abaixo os principais trechos.HOMICÍDIOS"A gente tem um sistema caro, ineficiente, que paga mal os policiais, convivemos com presídios superlotados. É verdade que conseguimos reduzir os homicídios, mas isso não se transformou em mudanças estruturais mais permanentes", disse Lima.Para Conte Lopes, a redução das mortes em São Paulo foi um efeito do crescimento do crime organizado."Os homicídios caíram porque nas biqueiras [pontos de venda de drogas] o bandido não podia matar, caso contrário aparecia policial. Hoje, onde eles estão a polícia não vai. Foram aceitando esse quadro até chegar ao que está acontecendo agora."ROTAOs convidados também criticaram a cúpula da Segurança, afirmando que foi um equívoco centralizar na Rota (tropa de elite da PM) o combate ao crime organizado."Me parece que houve uma opção política de se deixar a cargo da Rota, que presta relevantes serviços, o combate direto ao tráfico de entorpecentes", disse Marzagão.Para ele, a situação permite a prisão de traficantes menores, mas não ataca os chefes.Conte Lopes, que fez carreira na Rota, defendeu a atuação dos policiais, mas concordou que eles não podem resolver o problema."A Rota é a única que apreende grandes quantidades de drogas. Mas não podemos passar a responsabilidade para eles, que são 800 homens de um universo de 135 mil no Estado todo."INVESTIGAÇÃO"Vemos muitos casos de policiais assassinados, mas poucos assassinos foram presos. As investigações são pífias e muitas vezes acabam liberando os suspeitos por falta de provas", disse Friedenbach.Marzagão acrescentou que a investigação deve ser coordenada entre a polícia e diversos órgãos, como a Receita Federal."O binômio informação mais asfixiamento econômico é fundamental. Somente se poderá chegar aos grandes chefes do crime organizado através de um trabalho de investigação cruzando informações fiscais e financeiras."PENAConte Lopes criticou a legislação brasileira por permitir as saídas temporárias. "O juiz recebe 19 mil pedidos de saída, e não tem mesmo como analisar tudo. Como é que ele vai saber que tem um chefão perigoso incluído ali?"INTELIGÊNCIA"O debate também passa por uma reflexão sobre as causas imediatas e as causas mais estruturais. A gente não consegue avançar em uma agenda de reforma porque fica um grande jogo de empurra entre esferas de poder", disse Lima."É preciso ter um tripé entre inteligência, coordenação e controle. Não adianta ter uma polícia forte se ela não tem controle. Não adianta controlar sem ter inteligência."

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