sábado, 3 de novembro de 2012

Policiais de UPPs do Alemão dão aulas para moradores da comunidade




Soldado ensina crianças do Alemão a ler e a escrever.
Professor improvisa equipamentos para dar aula de ginástica.

Professor Inácio é formado em Letras e dá aulas para crianças e adolescentes do Alemão 
(Foto: Janaína Carvalho)

Depois de anos encarando a farda e o coturno como sinônimos de violência e troca de tiros, moradores do conjunto de favelas do Alemão, no subúrbio do Rio, se adaptam a uma nova realidade. Como parte das estratégias de proximidade com os moradores, policiais de unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do Alemão começaram a dar aulas voluntárias de reforço escolar e de atividades esportivas para jovens e adultos das comunidades.

Formado em Letras e pós-graduado em gramática, o professor e soldado da PM do Alemão Elton Inácio Ribeiro da Cunha tem ajudado crianças e a ler e escrever. “Meu filho tem 8 anos e desde os 3 está matriculado na escola. Só agora, com as aulas do professor, que ele está aprendendo a ler. Isso foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. A escola nunca deu a resposta que eu precisava durante todo esse tempo”, diz a dona de casa Maria Cristina Pereira, de 39 anos, visivelmente emocionada ao contar que o filho João Vitor lê as primeiras revistas.

Apesar de ter lecionado em diversos colégios, Tio Inácio, como é carinhosamente chamado pelos alunos mais novos, nunca havia dado aulas para alunos de comunidade carente. Segundo ele, foi justamente nesse local que encontrou a maior dificuldade de. “Não sei dizer onde está o problema, se é na escola, se é na criança mesmo, não sei. Mas o grau de dificuldade deles é muito grande”.

O soldado, que ministra as aulas voluntariamente nos dias de folga, destaca que a ideia do projeto não é substituir a escola, mas auxiliá-la. “A recompensa disso é que mães sobem o morro para me agradecer e dizer que o filho está lendo. Ensinar é a minha vida, é algo que faço com muito amor. Fazer esse trabalho aqui é uma realização muito grande”, afirma o professor de reforço escolar em português.
Aulas de português são ministradas na estação Alemão
(Foto: Janaína Carvalho)

Apesar de não abrir mão de dar aula fardado e já ter a gratidão de muitas mães e alunos, o professor admite que o fato de ser policial é motivo de certa resistência. Recentemente, após três meses do início das aulas, Inácio resolveu ligar para a casa de um aluno que nunca compareceu às aulas. Para sua surpresa, a mãe da criança disse que o garoto se recusava a ter aulas com um PM.

“O trabalho aqui é um processo lento. A primeira dificuldade que a gente enfrenta é esse bloqueio dos moradores. Mas isso é normal em todo processo de pacificação”, destaca o professor.

Para as aulas de Português, os alunos receberam doações de livros, material didático e contaram com o auxílio de mesas e carteiras doadas por comerciantes locais. Para se inscrever nas aulas de reforço, basta levar os documentos de identidade, CPF, comprovante de residência e declaração escolar à sede do CRJ, que fica na estação do teleférico do Alemão.

Melhor qualidade de vida para a população
Como melhor alternativa para afastar os jovens da criminalidade e das drogas e proporcionar qualidade de vida à população, policiais da UPP Nova Brasília apostam na prática de esportes e atividade física. Há cerca de 3 meses, militares formados em educação física ou graduados em luta marcial ministram aulas de futebol, ginástica, capoeira, muay thai e boxe chinês.

A dona de casa Magdália Gomes da Silva, de 35 anos, afirma que passou a ver a polícia de forma diferente depois que começou a participar das aulas de ginástica. “A gente passa na rua e vê os policiais sempre de cara fechada. Aqui percebemos que alguns são diferentes. O professor é bacana demais e muito bem humorado, só convivendo para ver”, afirma a aluna da turma de ginástica.
Leandro dá aula de ginástica três vezes por semana em quadra da comunidade Nova Brasília 
(Foto: Janaína Carvalho)

De acordo com o professor Leandro Faustino, de 30 anos, graduado em Educação Física, além de proporcionar melhor qualidade de vida, a ginástica tem aproximado a comunidade da UPP.

“Às vezes elas me perguntam se ainda sou policial. Respondo que sou professor e policial, mas que o mais importante é que sou igual a eles. A única coisa que muda é a farda. A gente está tentando mudar essa visão que eles tinham dos policiais”, garante Faustino, que divide o tempo entre o patrulhamento ostensivo na UPP Nova Brasília e as aulas de ginástica.

Como não há recurso para comprar equipamentos, o soldado usa a criatividade para fazer os pesos e as barras utilizadas nas aulas. Os pesos, que simulam halteres, são feitos de garrafa pet e preenchidos com cimento e água.

“A gente começou as aulas sem equipamento nenhum. Aos poucos fomos trazendo vassouras, que são utilizadas como barras, e as garrafas. Agora, estamos precisando de colchonetes para fazer o trabalho de alongamento específico”. Três vezes por semana o professor pega todo o material, coloca no seu carro particular e leva até a quadra da comunidade onde as aulas são ministradas.
Aula de box chinês são ministradas perto da UPP Nova Brasília 
(Foto: Janaína Carvalho)

Para o soldado Charles Enoque, de 25 anos, professor de box chinês, a prática de esporte é um grande diferencial na vida de jovens de comunidade. “A gente sabe que mente ociosa só dá para o mal e tivemos a oportunidade de empenhar um tempo a mais para fazer alguma coisa por essa garotada”, revela Enoque.

Segundo o professor, através do esporte é possível abrir outros caminhos na vida das pessoas. “A luta não é para brigar, é para educar e ensinar a ter disciplina. Estamos mudando eles em doses homeopáticas, sem que eles sintam. É bacana ver o carinho e o respeito que essas crianças passaram a ter pela gente”.

A expectativa do professor é que, em aproximadamente dois anos, futuros atletas comecem a surgir entre os jovens do Alemão. De acordo com Enoque, em alguns meses é possível identificar alunos que tem vocação para lutas marciais. “Tem uns que você vê que tem talento, que podem ser trabalhados. Nem todo mundo é um José Aldo ou um Anderson Silva, mas todo mundo que tiver força, raça e vontade pode ser um lutador de ponta”, afirma o policial.

Por Janaína Carvalho

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