quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Policiais fazem curso no Rio para enfrentar o crack





Eles aprendem técnicas e filosofias para lidar com os usuários

A policial militar Viviane Soledade dos Santos está entre os alunos, junto com Policiais militares, civis e guardas municipais de cerca de dez batalhões do Rio de Janeiro do curso de capacitação para o enfrentamento do crack. A iniciativa, da Subsecretaria de Educação, Valorização e Prevenção da Secretaria de Segurança, faz parte do programa Crack, é possível vencer, desenvolvido em parceria com o Governo Federal. 

“O curso é muito importante porque a gente passa a ver o dependente não só como um cara que está cometendo um crime, mas como um ser humano que precisa de apoio por parte da família e da comunidade. Muitos colegas não sabem lidar com os usuários de crack por falta de preparação e o curso vem para reciclar nossa formação e mostrar várias técnicas, inclusive na parte de Saúde, para que saibamos para onde encaminhar esse dependente químico e não só levá-lo direto para a delegacia, porque não é o ideal", disse a policial, que trabalha ainda no Programa de Resistência às Drogas da PM pelo projeto Proerj, uma parceria entre as escolas municipais e a polícia militar do Rio para a prevenção ao uso de drogas. 
Na Acadepol, da esquerda para a direita, a PM Viviane Soledade, a coordenadora do curso, policial civil, Cláudia Otília e a a superintendente Leriana Figueiredo

Viviane comenta ainda a dificuldade em lidar com a agressividade dos usuários: "O cenário da cidade mudou e nós não temos mais aqueles dependentes na rua como antigamente. Agora, com o crack, eles ficam mais agressivos e o nível de consciência é menor. Nossa esperança é adquirir uma prática cada vez maior”, acrescentou.

O curso é composto de três módulos, com duração de um mês e 160 horas aulas. A meta é atingir 200 profissionais da segurança pública, formando cinco turmas de 40 policiais. Segundo a Secretaria de Estado de Segurança, as vagas foram abertas para batalhões e delegacias localizadas em áreas que já lidam com a prevenção aos usuários de crack e/ou que tenham interesse em aumentar e qualificar seu efetivo neste quesito.

Orientação e abordagem

O primeiro módulo – realizado no período de duas semanas atrás – consiste na orientação sobre a abordagem dos policiais para com os usuários de drogas, gerando um conceito de mais humanização e proximidade entre a polícia e o dependente, no momento do suporte à abordagem da Assistência Social.

A superintendente de Prevenção da Secretaria de Estado de Segurança, Leriana Figueiredo, esteve nesta quinta-feira (1º) na Associação de Delegados de Polícia do Estado do Rio de Janeiro (Adepol), um dos locais onde é realizado o curso. Lá, ela contou que esta primeira parte do curso prevê uma mobilização social: “O primeiro módulo qualifica o profissional no enfrentamento e no posicionamento ao se deparar com 
o usuário de crack”, explicou
.
Alunos em sala de aula aprendem mais sobre as redes de atenção e prevenção do crack

Nesta semana, os policiais fazem o segundo módulo, onde adquirem o conhecimento prático e teórico sobre as redes que visam o amparo, a recuperação e a reinserção social dos usuários do entorpecente. Assim, as redes de atenção e cuidado são desmistificadas para o profissional de segurança pública.

Para Leriana, esta etapa das aulas faz com que os policiais entendam que existe uma rede de intervenção: “É para que saibam como encaminhar o usuário, reconhecer o problema e entender a rede”, informou. O agente aprende a se posicionar e reconhecer a importância do seu papel na interação com os demais atores envolvidos no programa, encarando essa questão sob a perspectiva de saúde pública, cuja alternativa deve ser, em primeiro lugar, o atendimento médico e psicossocial.

Na próxima semana, os alunos entram na reta final, onde vão aprender a atuação e as técnicas de abordagem policial, o uso diferenciado da força e de equipamentos de menor potência ofensiva como sprays de pimenta e pistolas elétricas, nos casos em que se fizerem necessários.

Internação compulsória: profissionais falam sobre a polêmica

Policiais, psiquiatras, enfermeiros e outros profissionais formam a equipe de professores do curso, indicados pela coordenação estadual, pelo Governo Federal, através do Ministério da Saúde e do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome e pela própria Secretaria de Segurança do estado.

A enfermeira especializada em Psicologia Maria Lúcia Freitas, responsável pela organização das redes de atenção à saúde, uma das professoras do curso, falou sobre a dificuldade na conscientização dos policiais sobre as internações de usuários: “Quando passamos a ideia de que não se pode aprisionar ninguém por estar em surto pelo uso da drogas é um contra-senso para eles, já que estão acostumados a prender pessoas que cometem crimes”, afirma.

Maria também comentou sobre a legislação atual de internação de dependentes: “Só um juiz ou um psiquiatra que acompanhe o usuário tem o poder de decisão de retirá-lo das ruas. E, mesmo assim, essa internação deve ser temporária. Se a família levar um parente viciado a um abrigo e este aceitar a internação quer dizer que a instituição está ferindo o o direito daquele cidadão", observou a enfermeira. "Não é por que a pessoa está em surto que deixa de ser cidadã. A liberdade é um direito de cidadania. É necessário que a família faça a solicitação para um juiz e, este sim, avalie e autorize a internação, sempre temporária, daquele usuário”, completou.

A responsável informou ainda que no dia 11 de dezembro haverá uma audiência pública no Ministério Público: “Será uma audiência muito importante, que vai fazer a moderação entre o estado e os gestores técnicos”, adiantou a profissional.

Para a superintendente de prevenção da Secretaria de Segurança, Leriana Figueiredo, por enquanto a internação compulsória é apenas uma discussão, que será cumprida pelos policiais quando entrar em vigor. “O enfrentamento do crack é uma abordagem multidisciplinar, mas a Segurança Pública só dá suporte às ações da Assistência Social, que é quem realiza a abordagem e o atendimento de fato. Nós vamos trabalhar de acordo com a legislação vigente”, finalizou.

Por Íris Marini

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