sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Secretário prega conciliação entre polícias e cooperação com governo federal






Em meio à pior crise da atual gestão de Geraldo Alckmin (PSDB) no governo paulista, o novo secretário de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, assumiu o cargo ontem com um discurso de conciliação com o governo federal. Ao marcar diferença em relação ao seu antecessor, o novo secretário prometeu a integração e valorização das polícias civil, militar e científica, mas sinalizou com mudanças na cúpula dessas entidades.

O novo secretário disse que reforçará as parcerias com outros Estados, municípios e com a União na área da segurança. "O crime organizado não respeita fronteiras. A única forma de combatê-lo é com planejamento, inteligência e capacidade de atuação de todos os entes que compõem a federação", disse Grella.

A gestão do ex-secretário Antônio Ferreira Pinto - que estava no cargo desde 2009 e no primeiro escalão do governo desde 2006 - foi marcada por desentendimentos com o governo federal. A recente discussão de Ferreira Pinto com o Ministério da Justiça sobre as parcerias entre os governos paulista e federal desagradou Alckmin e foi um dos motivos da demissão do ex-secretário.

O novo titular assume a pasta em meio ao forte aumento dos homicídios em São Paulo. Na capital, os assassinatos quase dobraram em relação ao ano passado: subiram 92,3%, passando de 78 casos para 150 em outubro, em comparação com o mesmo mês de 2011. Somados aos homicídios da região metropolitana, o número salta para 331 casos, ante 182 de outubro do ano passado. Noventa e três policiais morreram.

Em seu discurso de posse, Grella disse que foi convidado por Alckmin para levar mudanças à secretaria. "Esse objetivo só será alcançado pelo aperfeiçoamento dos mecanismos de transparência, com a participação da sociedade civil organizada e com a atuação conjunta e de troca de conhecimento entre as polícias militar, civil e científica", disse, em evento concorrido no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

O novo titular fez um aceno às polícias, sobretudo à civil, cuja cúpula demonstrou descontentamento com a atuação do ex-secretário. "As instituições policiais terão em mim o primeiro aliado na defesa permanente da valorização das carreiras policiais", disse. Grella, no entanto, afirmou que os policiais investigados por supostos abusos e participação nos homicídios devem ser afastados.

As mudanças nas cúpulas das polícias devem ser anunciadas nos próximos dias.

O secretário, anunciado na véspera, declarou que conciliará o enfrentamento ao crime com o respeito aos direitos humanos. "É preciso desfazer a noção equivocada de que o combate ao crime e o respeito aos direitos humanos são excludentes. Não são. Não se pode tolerar a omissão no Estado, mas não se pode aceitar a violação dos direitos fundamentais", afirmou.

Tido como conciliador, Grella exerceu, entre 2008 e março deste ano, o cargo de procurador-geral de Justiça do Estado de São Paulo. Está no Ministério Público Estadual desde 1984.

Presente ao evento, Ferreira Pinto disse que foi o principal responsável pela nomeação de Grella como procurador-geral de Justiça no Estado e fez um discurso marcado por elogios à ação da Rota, como é conhecido o batalhão Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar. "Eu sempre prestigiei e me orgulho de prestigiar a Rota", disse o ex-secretário, evitando mencionar as suspeitas de abuso na atuação da Rota. Ferreira Pinto tentou minimizar problemas com a Polícia Civil e negou que a Rota tenha assumido o papel de investigação no Estado.

A eventual ligação de policiais aos homicídios, os supostos excessos da Rota e a falta de integração entre as polícias também estão entre os motivos que levaram à demissão de Ferreira Pinto pelo governador Alckmin na segunda-feira (leia mais nesta página).

O governador elogiou a atuação de Ferreira Pinto e disse que São Paulo "vencerá" a crise de violência com o novo secretário. "O Estado não se acovarda, não se intimida. Venceremos", declarou. "São Paulo, que conseguiu o feito de baixar os índices criminais a níveis equiparáveis a países desenvolvidos, não pode admitir e não admitirá uma regressão nesse campo".

Ao fim de um discurso rápido, Alckmin parafraseou o governador morto Mário Covas (PSDB). "Quando o desafio é grande só há três atitudes possíveis: enfrentar, combater e vencer", disse. Em Brasília, depois de participar da cerimônia de posse do ministro Joaquim Barbosa como presidente do Supremo Tribunal Federal, Alckmin disse que a onda de violência é "momentânea". "É uma fase de enfrentamento do tráfico de drogas e armas, mas é transitório". (Colaboraram Maíra Magro, Juliano Basile e Bruno Peres, de Brasília)

Por Cristiane Agostine | De São Paulo

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