sábado, 8 de dezembro de 2012

Dez anos após a implosão do Carandiru, sensação ainda é de alivio na região





"Quase todos os dias tinha alguma notícia ruim e barricadas da polícia perto da minha casa. Era um pesadelo", diz moradora da região e frequentadora do Parque da Juventude, em SP

Crianças jogando futebol, jovens andando com skates e outros conversando em bancos em um parque. Tal cena comum em muitos outros locais arborizados em São Paulo ainda é considerada uma agradável surpresa para moradores da zona norte. Surpresa porque mesmo após dez anos da implosão do Carandiru, completados neste sábado (8), muitos não escondem o alívio que a remoção dos pavilhões do complexo penitenciário trouxe para a região, que ganhou muito com a criação do Parque da Juventude.

Divulgação
O Complexo do Carandiru, há exatos 10 anos, após ser implodido em 08/12/2002

Moradora da zona norte há 45 anos, Glória Lopes Marcelino, de 63, admira com sorriso no rosto os netos jogando bola com crianças que conheceram havia poucos minutos. Ao ser questionada sobre suas lembranças do “tempo do Carandiru”, sua expressão muda. “Um clima tão pesado. Quase todos os dias tinha alguma notícia ruim na televisão e barricadas da polícia perto da minha casa. Era um pesadelo", diz antes de mudar de assunto e ressaltar a beleza do Parque da Juventude, contruído no mesmo local.

Após a desativação da Penitenciária do Carandiru, o Parque da Juventude mudou a paisagem da região. No lugar foi construído um complexo cultural recreativo de 240 mil m². Lá é possível praticar esporte, acessar a internet de graça, participar de cursos gratuitos no prédio da ETEC ou ir a Biblioteca de São Paulo.

“Eles [os netos] não cansam, não! Podem ficar aqui o dia inteiro. E é uma delícia caminhar entre as árvores e respirar um ar mais puro”, diz Glória enfatizando que realiza caminhadas pelo menos duas vezes por semana no parque. Segundo ela, que odeia ver os netos “enfiados no video game”, ficar em casa é uma tortura. “Aqui meus netos voltaram a ser crianças”, afirma enquanto pegava garrafas com água gelada de sua bolsa térmica.
Moradora da região, Glória Lopes Marcelino observa os netos jogando futebol no Parque da Juventude. Foto: Carolina Garcia

Poucos metros a frente estava a dona de casa Patrícia Ferraz, de 40 anos, que acompanhava o filho de oito anos em uma festa de amigo secreto da escola. “No passado, eles não teriam essa opção [de fazer a festa em um parque]. Teríamos que nos deslocar ao Horto ou Ibirapuera. Sempre fui a favor de que presídios deveriam ser afastados da área urbana. Lembro como se fosse ontem como as fugas dos presidiários deixavam todos assustados”.

Ao fazer uma caminhada pelas trilhas do parque, o visitante pode ter um contato direto com a história do Carandiru. Isso atrai muitos jovens que, não nascidos nas últimas décadas, não acompanharam as notícias do presídio e nem sua desativação. Parte da muralha que cercava o complexo é mantida e pode ser usada como trilha pelos visitantes. Além disso, ao avançar na caminhada, pode-se conhecer de perto ruínas de um pavilhão que não chegou a ser concluído. E foi nesse local que estavam nove jovens de uma escola pública de Embu das Artes, na Grande São Paulo.

“Sempre tive curiosidade de conhecer mais de perto a história que gerações próximas ainda podem explicar”, disse o estudante Ícaro, que cursa o primeiro ano do ensino médio. Todos realizavam um trabalho de campo e, ao explorar o Parque da Juventude, se surpreendiam com os pedaços da história entre árvores e quadras poliesportivas.

Por Carolina Garcia

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