sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

"É um terror psicológico", admite oficial da PM sobre toques de recolher em SP




Para representantes das polícias, segurança deficiente aumenta pânico

Ana Cláudia Barros, do R7
FABIO MARTINS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Para diretor de associação de PMs, é hipocrisia negar toque de recolher

Os boatos de toque de recolher que têm atormentado paulistanos em 2012 são reais em algumas partes do Estado. Integrantes da própria polícia admitem que, especialmente em regiões da periferia, quem manda é o crime organizado.

O diretor de ensino da ASS/PM (Associação Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar de São Paulo), Írio Trindade de Jesus, avalia que os criminosos aproveitam as lacunas deixadas pelo Estado. Para ele, é hipocrisia negar a existência de toque de recolher em São Paulo.

— Alguns deles [criminosos] fazem isso, colocam as pessoas para dentro de casa. Principalmente, na periferia, onde a polícia demora para chegar, por uma série de questões. A gente não pode se curvar. A questão maior é que onde o Estado não está presente, o crime toma conta. E isso acontece... São Paulo é muito grande. Não tem como administrar toda sua periferia.

Para o tenente Dirceu Cardoso Gonçalves, dirigente da ASPOMIL (Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo), os rumores de toque de recolher são uma tática dos criminosos para promover o descrédito do Estado e instaurar um clima de pânico, na maioria das vezes.

— O toque de recolher é um absurdo. A maior parte deles é trote para criar uma instabilidade, para levar uma preocupação para a sociedade, para diminuir o Estado, para mostrar à população que eles (criminosos) têm o controle da situação, e não o Estado.

Procurada pelo R7, a Polícia Militar “esclarece que, em virtude dos últimos acontecimentos relacionados à segurança pública, pessoas mal-intencionadas criam boatos para desestabilizar e amedrontar a sociedade”. Por sua vez, o tenente Dirceu Cardoso protesta até mesmo contra os rumores.

— Não pode haver nem boato de toque de recolher. É um absurdo. Gera um clima de desordem, uma sensação de que o Estado não consegue controlar e que o crime organizado está mandando na situação. É um terror psicológico.

"Trote" na população insegura

O presidente do Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo), George Melão, comenta que a entidade tem recebido denúncias de toque recolher de vários delegados em diversas regiões da grande São Paulo, da baixada Santista e até do interior. Ele destaca que, em alguns casos, verificou-se “o mero oportunismo de pessoas irresponsáveis que não tinham qualquer ligação com o crime organizado, que espalharam o boato como forma de trote”.

De acordo com o presidente do sindicato, a percepção dos delegados quanto ao toque de recolher é de uma “sombra”, que muitas vezes não se vê, mas que está bem próxima.

— Em razão da insegurança pública, o medo e o terror tomaram conta da vida do cidadão, principalmente na periferia, onde a ausência do Estado é uma realidade constante. Assim, quando surgem os boatos de toque de recolher, imediatamente tentamos tomar as medidas necessárias para tranquilizar o cidadão. Contudo, em regra, são ineficazes, pois o morador, o comerciante, os professores, enfim, toda a população sabe que a polícia não estará presente 24 horas por dia.

Na avaliação do delegado, o cidadão está vulnerável à criminalidade e, por essa razão, mesmo quando são apenas boatos, “as pessoas procuram não desrespeitar a ‘determinação’, pois se for verdadeira, aquele que desobedecer sabe que sofrerá as consequências”.

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