terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Não é só um policial com fuzil na mão..






José Mariano Beltrame

Uma das lições que a pacificação está dando aos cariocas é a de que a democracia, a cidadania, o desenvolvimento econômico e a própria paz não dependem tão somente de um policial militar com um fuzil na mão, postado ostensivamente na porta da comunidade ou pelas ruas da cidade.

A cada retomada de território para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), há um roteiro que se repete. Nos primeiros dias, a PM se reúne com lideranças comunitárias e moradores para conversar sobre a nova realidade. Após duas, três reuniões, a discussão sobre a segurança começa a ser substituída por outra: as demandas sociais. A comunidade quer água encanada, saneamento básico, coleta de lixo, iluminação pública das ruas e vielas, um endereço próprio onde os Correios possam entregar suas cartas, creche, escola, posto de saúde, transporte coletivo de qualidade, áreas de lazer, programas esportivos e culturais para os jovens e crianças, postos para tirar carteira de identidade e de trabalho, serviços privados (academia de ginástica, lojas, bancos, supermercados, TV a cabo, internet etc.). E, acima de tudo, essas famílias querem uma perspectiva de futuro para seus filhos, uma esperança para essa juventude que até então tinha como única referência de sucesso um traficante armado de fuzil e com cordões de ouro e carro roubado.

O tráfico, a milícia, o jogo do bicho, toda forma de crime mais ou menos organizado atua e se encastela onde há o vazio do Estado. É nas comunidades esquecidas há décadas pelo poder público que a criminalidade encontra espaço fértil para se instalar e construir seus impérios. Lá, os bandidos se tornam o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, impondo suas regras à base do fuzil e de ameaças cruéis contra quem discordar, erguendo um muro invisível que separa aquele território da cidade formal.

Recebemos regularmente homens públicos de outros estados e de outros países interessados na experiência do Rio, particularmente nas UPPs. Alguns chegam aqui achando que encontrarão a fórmula mágica para resolver seus problemas. Mas a todos eu repito a mesma coisa: o mais importante é descobrir o que é preciso para que o Estado possa retomar aquela comunidade, entrando nela com liberdade e segurança para oferecer os serviços básicos que a população exige e que o restante da cidade já possui. Se para isso uma operação policial de dois dias for suficiente, então não é preciso ocupar e instalar uma UPP. Cada caso é um caso, assim como cada uma das 28 UPPs do Rio nos apresentou desafios variados e bem diferentes.

Onde o crime ainda não é tão forte, a saída é justamente o poder público entrar na comunidade. Nesses casos, talvez nem seja preciso recorrer à polícia, porque a comunidade sabe muito bem o que quer: prefere a segurança do Estado democrático à ditadura do crime. Essa é mais uma lição que a pacificação do Rio está nos ensinando.

A ação policial é somente o primeiro passo para o restabelecimento das condições básicas para o Estado e a iniciativa privada entrarem com serviços, cidadania e desenvolvimento econômico e social. A ação policial não é um fim em si, é um meio para a sociedade acabar com as cidades partidas.

É isso que as comunidades pacificadas do Rio estão nos ensinando. A solução para áreas conflagradas pelo crime não está somente na Polícia. Onde o Estado é presente, onde há cidadania, serviços públicos de qualidade, respeito ao direito básico de ir e vir e esperança de futuro, não há espaço para a criminalidade. E aí o policial deixa de ser um guerreiro armado de fuzil na porta da favela e passa a ser um operador de segurança pública, trabalhando de forma integrada com a comunidade, tornando-se parceiro de seu desenvolvimento e sendo admirado e querido por suas crianças.

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