quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Pacificação ainda não levou paz a moradores





Para pesquisadora, UPPs trouxeram sensação de segurança apenas para quem não mora nas comunidades pacificadas
Reprodução/Redes da Maré

Campanha no Complexo da Maré pretende mostrar os direitos dos moradores e evitar abusos das forças policiais com a ocupação

Não dá para avaliar se as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras) implantadas no Rio de Janeiro há quatro anos são positivas ou negativas, pois há ainda um longo caminho a percorrer para que a pacificação realmente traga paz para os moradores, acredita Juliana Farias, pesquisadora da Justiça Global – associação que trabalha com a promoção de direitos humanos. Para ela, a iniciativa do governo trouxe uma sensação de segurança para as pessoas que não vivem em comunidades, mas ainda há falhas e problemas para os moradores desses locais. 

“Eu acho que, no geral, a avaliação das pessoas que moram no asfalto é uma sensação de segurança porque existe uma crença nesse programa. Mas, isso não tem ligação direta com redução dos impactos mais concretos, está mais ligado com imaginário, com a expectativa”, diz Juliana. “Em relação aos moradores das comunidades, o que podemos ver do início para cá é uma variação de expectativa. Quem desejava e quem negava a UPP. Escutamos um discurso muito complexo sobre as pessoas que eram contrárias, como se elas fossem coniventes com o tráfico”, completa.

Entretanto, para a pesquisadora, esse segundo público não são pessoas que estão pactuadas com os traficantes de drogas, mas sim que têm laços sociais e afetivos que os fazem valorizar a comunidade. Por isso, acabam vendo essa ocupação com grande preocupação e com receio.

Abuso de poder 

Essa rejeição é justificada pelas constates queixas de moradores em relação a abusos de autoridade por alguns policiais militares. “Existe um histórico de violações por parte desses agentes, que usam uma politica de repressão de determinados costumes dos moradores”, comenta. 

Além disso, segundo ela, os moradores destacam a diminuição de tiroteios e também incursões policiais violentas, mas as mortes e problemas não deixaram de existir. “Aumentou absurdamente a quantidade de registro de desacato às autoridades. Os jovens moradores das favelas, com idades entre 15 e 25, não podem questionar. O funk está sendo muito reprimido. As atividades regionais, em geral, também. Batizados, festas, churrascos, não se pode ter música alta após as 22h”, completa Juliana.

Para evitar essas situações, algumas comunidades vêm reagindo e se preparando para a pacificação. Como é o caso do Complexo da Maré, que deve receber uma UPP em breve – apesar de a data ainda não ter sido confirmada pela SSP (Secretaria de Segurança Pública). 

Direitos 

“A comunidade preparou recentemente uma ação de informação para o conjunto dos moradores das favelas, para que saibam que os policiais não têm o direito de entrar na casa deles sem o mandato e para tentar prevenir uma série de outros direitos que costumam ser violados especialmente nesse momento da ocupação”, conta.

A campanha “Somos da Maré e temos direitos” foi criada a partir de uma iniciativa da instituição Redes da Maré, da Anistia Internacional e do Observatório de Favelas e visa garantir os direitos dos moradores da comunidade à segurança e prevenir contra abusos e ações desrespeitosas por parte das forças policiais, segundo informações da Redes da Maré. Durante a ação, 50 mil folders com orientações sobre como agir nesses casos foram distribuídos para os moradores do complexo. 

Vídeo mostra a manifestação de moradores da Favela do Borel 


Recentemente, também foi realizado o “Ocupa Borel”, uma iniciativa dos moradores da região que saíram as ruas no dia 5 de dezembro para protestar contra o toque de recolher. Os moradores alegam que não podiam circular após as 21h por imposição dos policiais. A ação foi organizada pelas redes sociais e pelo boca a boca e teve grande participação da comunidade. 

“É uma pacificação que ainda não trouxe paz para essa população. Os moradores questionam muito essa noção. A presença desses agentes ainda não atingiu o real sentido do que a palavra propõe”, finaliza Juliana.

Atualmente, o Rio de Janeiro conta com 30 comunidades pacificadas e 28 UPPs já instaladas. Segundo o governo do Rio de Janeiro, as duas últimas favelas que foram ocupadas pelos policiais – Manguinhos e Jacarezinho – devem receber a sede da UPP até o final de janeiro do ano que vem.

Por Marielly Campos

Fonte: Band

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