quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Para receber propina, policiais ameaçavam cancelar baile funk




Rio - Através do monitoramento dos telefones, a polícia ouviu “negócios” feitos este ano entre PMs e traficantes presos na Operação Purificação, nesta terça-feira. Em um deles, os policiais ameaçaram cancelar um baile funk na Favela Vai Quem Quer, em Nova Campina.

Divididos em bondes — mas como se fossem facções amigas —, os agentes mostram que lotearam os bairros de Caxias. Combinam, inclusive, dividir a rota para recolher propinas.

A investigação mostra o sargento Sérgio Fernandes Odilon negociando, em junho, com traficante depósito de R$ 1,9 mil em sua conta bancária. Ele pede ao bandido para conhecer a sua casa, uma cobertura. O traficante diz: “nunca vi alguém que ama tanto o metal”.


Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia

Operação Purificação cumpre mandados de busca e apreensão contra policiais militares suspeitos de ligação com o tráfico. PMs eram lotados no batalhão de Caxias na época do ínicio das investigações

No mesmo mês — de férias — o policial liga para o amigo, o sargento André Antônio Lopes , o King Kong, para saber se têm direito a uma parte na propina. É informado, então, que vai receber R$ 600 e passa o número da conta bancária.

Outras escutas revelam as extorsões praticadas. Numa delas, o grupo sequestra três pessoas e exige R$ 200 mil. Os bandidos oferecem R$ 7 mil e o policial diz que o superior não aceitou a proposta. Os detidos vão para a 62ª (Imbariê).

Baile funk

Em quatro momentos das escutas, os policiais atribuem aos estrelas — como são conhecidos os oficiais — ordens para aumentar o valor das propinas.

Numa delas, um policial militar não identificado manda o traficante Willian Moreira da Silva, o Pit, cancelar o baile funk na favela Vai Quem Quer, em Nova Campina. E diz que a ordem é do “estrela abaixo do Dono”, numa alusão ao subcomandante do 15º BPM.
Erir Costa Filho (esq) e Beltrame em coletiva | Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia

Uma hora depois, o policial retorna ao criminoso e diz que “suou e resolveu”, mas “ tem que vir R$ 3 mil do arrego e R$ 2 mil do baile. Em outro trecho, um PM avisa ao traficante que, como não houve propina, lotou a favela de “formigas” (policiais) e avisa que o “estrela” quer R$ 200 mil.

O traficante Léo Centenário diz que não tem como pagar. Em outro momento, o sargento Odimar Mendes dos Santos diz para um traficante que o “estrela” mandou perguntar se o negócio (propina) está certo.

Como houve operação, o bandido se nega a dar os R$ 400 pedidos. Nesta terça-feira, mulheres de policiais presos choraram próximo ao ônibus em que eles estavam.

Vergonha: 63 presos

Ao todo, 63 PMs que atuaram no 15º BPM (Duque de Caxias) foram presos por receber propinas semanais para deixar de reprimir a venda de drogas em 13 favelas de Caxias.

Os negócios entre policiais e traficantes eram tão intensos que os chamados arregos eram pagos inclusive a quem estava de folga ou de férias e depositados em conta corrente. Em média, os bandidos pagavam R$ 2,5 mil por patrulha, onde trabalham quatro PMs.

A Polícia acredita que, no total, os agentes tenham recebido R$ 150 mil em propinas. Onze traficantes foram detidos. A quadrilha era chefiada por Carlos Braz Vitor da Silva, o Fiote, homem de confiança de Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, e que mesmo preso controlava a compra de drogas e pagamentos do tráfico.
Ao sair do Quartel-General da PM, no Centro, parte de policiais detidos é levada para o presídio Bangu 8 | Foto: André Luiz Mello / Agência O Dia

Entre os presos está Valdirene Farias de Barros, mulher de Fiote e falsa pastora da Igreja Assembleia de Deus da Restauração dos Vasos. Ela seria a intermediária entre tráfico e PMs.

Um ano de investigação

A investigação, coordenada pela Subsecretaria de Inteligência e o Ministério Público, levou um ano e acompanhou conversas telefônicas entre PMs e traficantes. Os agentes serviam em destacamentos de seis bairros de Caxias e nos grupos de ações táticas, criados para coibir o tráfico.

Escutas autorizadas pela Justiça mostram rotina de extorsões praticadas pelos policiais quando propinas atrasavam ou não eram pagas. Para compensar, houve episódio em que o PM se comprometeu a depôr na Justiça a favor do bandido preso. Os militares foram presos em Bangu 8.

O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, espera pela expulsão sumária da polícia dos envolvidos em 30 dias. O comandante do 15º BPM, tenente-coronel Claudio Lucas Lima, foi exonerado.

Glossário

-Feitiço

Traficantes e policiais usam códigos e alguns chamam a atenção, como o Feitiço — usado na mistura de lidocaína e cafeína à cocaína para aumentar lucros.

Sintonia é como os PMs dizem que o agente está do lado do traficante e, Vento, é como a propina é chamada nas conversas. As Patamos são barcas.

-Cemitério

Locais para pagar as propinas. O sargento Wagner Teixeira Gonçalves, ao falar com o traficante Léo, diz que está a caminho do pé-junto (Cemitério) onde irá receber o "arrego". A ousadia era tanta, que até no destacamento bandidos iam entregar dinheiro.

-Doutor

Ex-diretor de presídio, Lemuel Santos de Santana era o ‘Doutor’ da quadrilha: encarregado de conseguir advogados.

-Geladeira

Sargento Emerson Vagner Costa Sousa combinou com traficante a entrega de escopeta. A arma seria deixada em uma geladeira. Ao pegar, o PM colocou R$ 300 no congelador.

Por POR DIEGO VALDEVINO / JOÃO ANTONIO BARROS / MARCELLO VICTOR

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