quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sem socorro policial




SÃO PAULO Diante do aumento de denúncias de participação de policiais militares em grupos de extermínio, o governo de São Paulo anunciou ontem uma medida radical e considerada polêmica por especialistas. Uma resolução da Secretaria da Segurança Pública do estado prevê que somente os serviços médicos e paramédicos de emergência, como o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), vão socorrer vítimas de crimes ou pessoas envolvidas em confrontos com a polícia. Os próprios policiais não poderão mais prestar essa assistência.O secretário da Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella Vieira, informou que a intenção é garantir a preservação dos locais de crime para a realização de perícia, além de ser importante que as vítimas recebam atendimento especializado. Na noite da sexta-feira passada, na primeira chacina da cidade neste ano, sete pessoas foram mortas e duas ficaram feridas em um bar no bairro Campo Limpo, na Zona Sul de São Paulo. Testemunhas acusaram PMs de recolher os cartuchos de balas para supostamente dificultar a investigação.Além disso, o registro de boletim de ocorrência não poderá mais exibir as denominações "auto de resistência" e "resistência seguida de morte". Serão substituídas por "lesão corporal decorrente de intervenção policial" e "morte decorrente de intervenção policial". A troca segue recomendação do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Levantamento feito pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) aponta que, no ano passado, 1.316 pessoas foram mortas em confronto com a polícia em 15 estados.Em outra mudança, os nomes de testemunhas deverão ser informados à Polícia Civil para investigação. Antes, em muitos casos, a lista ficava restrita aos batalhões da PM.- É importante que as vítimas de agressões e crimes, bem como aquelas envolvidas em confrontos com a polícia, tenham acesso a serviços de socorro especializados, o que já acontece nos casos de acidentes no trânsito - justificou o secretário.O comandante da PM, coronel Benedito Roberto Meira, afirmou que a medida beneficia os policiais militares:- Você resguarda o trabalho policial. Nós queremos lisura, não queremos dúvida.Para Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a PM não está pronta para prestar atendimento.- A medida deve sobrecarregar o sistema de Saúde, mas é uma decisão acertada. O policial não está preparado para atender essa vítima - avalia Sérgio de Lima.- Eles querem reduzir as mortes pela polícia. É do interesse dos policiais e eles deveriam ter uma clareza em relação a isso, de que a versão deles possa ser corroborada pelas provas - acrescenta Nancy Cardia, vice-coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP.Já Cristina Zackseski, professora do Centro Universitário de Brasília (UniCeub) e pesquisadora da área de criminologia, afirma que os casos de execuções que eram registrados como resistência não vão deixar de existir:- Do ponto de vista estatístico, teremos que procurar estas execuções com outro nome.Na visão da acadêmica, o impedimento do socorro de policiais pode ser fatal, por exemplo, para uma vítima de um sequestro atingida numa troca de tiros.O Samu de São Paulo informa que, por dia, são recebidas nove mil ligações, que geram 1,2 mil atendimentos. Na capital paulista, o serviço conta com 140 ambulâncias para atender os chamados.

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