terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O crime entrou em campo






Editorial

Paixão popular no mundo inteiro, o futebol não é isen­to de denúncias de corrupção. Já na transição do ama­dorismo para o profissionalis­mo, ele é tema de extenso fol­clore contendo casos como o do dirigente de um clube que prometeu pagar ao goleiro do adversário certa quantia por gol tomado e, após o quinto, avisou-lhe que o trato não va­lia para os próximos. Tendo es­se esporte se transformado num negócio muito próspero, a manipulação de resultados de partidas se tomou relativa­mente comum. E as quantias envolvidas, cada vez maiores. Ainda assim, os dados revela-dos no último escândalo divul­gado impressionam: quase 700 jogos - 380 em 15 nações europeias e mais de 300 na Améri­ca do Sul, América Central, África e Ásia, inclusive no Bra­sil, na Copa dos Campeões da Europa e nas eliminatórias pa­ra a Copa do Mundo - estão sob investigação do Serviço Eu­ropeu de Polícia (Europol).

Os policiais calculam que na Europa, onde se concentra a elite do futebol mundial, a máfia devassada pagou € 2 bi­lhões (R$ 5,4 milhões) em pro­pinas e recebeu € 8 bilhões (R$ 35 bilhões) em prêmios de loteria e apostas feitas pela internet. "Nunca vimos uma re­de tão grande de criminosos no futebol. Trata-se de uma operação sofisticada e uma evi­dência clara de como a corrup­ção invadiu o esporte", comen­tou o diretor do Europol, Rob Wainwright.

O esquema devassado baseia- se na compra de jogadores, ár­bitros e dirigentes para assegu­rar resultados de interesse de apostadores. Jogos de pouco destaque no noticiário esporti­vo estão sob suspeita. O trio que apitou um amistoso entre seleções sub-20 da Argentina e da Bolívia em 2010 deu à parti­da um acréscimo de 13 minu­tos sem razão aparente. E o juiz ainda marcou um pênalti inexistente para garantir a vitó­ria dos argentinos. Pelo menos um jogo válido pela Copa dos Campeões na Inglaterra, dois das eliminatórias para a Copa da África e um na América Cen­tral estão sendo investigados. De acordo com os investigado­res, além de obter lucros milio­nários, os bandidos também usam a fraude para lavar di­nheiro ilícito obtido na venda de entorpecentes.

Esta é a principal diferença entre o escândalo denunciado esta semana pelo Europol e ou­tros ocorridos em passado re­cente. Em 2006, a descoberta da manipulação de resultados no futebol italiano resultou no rebaixamento da tradicional Juventus de Turim para a se­gunda divisão do campeonato nacional. No ano passado, es­quema similar foi denunciado no mesmo país, cuja seleção já conquistou quatro Copas do Mundo da Fifa.

No Brasil, também não é incomum o registro de casos es­cabrosos. Há 30 anos, quando a Loteria Esportiva era uma mania nacional quase igual à paixão pelo próprio futebol, a revista especializada em espor­tes Placar revelou que jogos que constavam das cartelas de aposta tinham resultados alte­rados à base do suborno de seus participantes. Em 2005, outra revista, a Veja, denun­ciou a chamada Máfia do Api­to, sob o comando de Edilson Pereira de Carvalho, acusado de chefiar uma quadrilha de ár­bitros venais. Das investiga­ções feitas após a reportagem resultou a anulação de 11 jogos do Campeonato Brasileiro.

Só que a corrupção não se li­mita ao que ocorre dentro das quatro linhas que delimitam o gramado. Também prospera nos escritórios de um negócio que movimenta fortunas em transferências e contratos de craques e treinadores. E em quantias vultosas investidas em publicidade na transmis­são pela televisão de torneios acompanhados por bilhões de espectadores pelo mundo in­teiro. Recentemente, Ricardo Teixeira foi apeado da presi­dência da CBF sob suspeita de enriquecimento ilícito. E a re­vista francesa France Football revelou que dirigentes da Fifa teriam recebido propina para escolher o Catar para sediar a Copa do Mundo de 2022.

O combate a essa praga deve começar pela transparência na contabilidade de clubes, fede­rações, confederações e da Fifa, entidades privadas em que dirigentes reinam por anos a fio, sem a obrigação de prestar contas de suas gestões.

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