terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O dossiê da vergonha







O PT, o governo cubano e até um funcionário do Palácio do Planalto estão envolvidos numa conspiração para espionar e tentar desqualificar Yoani Sánchez — a blogueira conhecida por denunciar a ditadura dos irmãos Castro —, que chega ao Brasil nesta semana

A blogueira Yoani Sánchez desembarca no Brasil nesta semana para divulgar o livro De Cuba, com Carinho, uma coletânea de seus textos sobre o triste cotidiano do povo cubano sob a ditadura dos irmãos Fidel e Raúl Castro. O trabalho rendeu à dissidente uma perseguição implacável. Ela foi sequestrada, torturada e, durante anos, impedida de deixar o país. É rotulada de mercenária pelos comunistas da ilha e acusada de trair os princípios revolucionários. O que Yoani não sabe é que, apesar da distância que separa o Brasil de Cuba — 5 000 quilômetros —, ela não estará livre dos olhos e muito menos dos tentáculos do regime autoritário. Para os sete dias em que permanecerá no Brasil, o governo cubano escalou um grupo de agentes para vigiá-la e recrutou outro com a missão de desqualificá-la a partir de um patético dossiê. Uma conspirata oficial em território estrangeiro contra quem quer que seja é uma monumental afronta à soberania de qualquer nação. Esse caso. porém, envolve uma inquietante parceria. O plano para espionar e constranger Yoani Sánchez foi elaborado pelo governo cubano, mas será executado com o conhecimento e o apoio do PT, de militantes do partido e de pelo menos um funcionário da Presidência da República.

Veja apurou os detalhes da operação clandestina deflagrada pelo regime cubano para perseguir Yoani Sánchez em território brasileiro.

No último dia 6 de fevereiro, um grupo de militantes de esquerda, em sua maioria ligados ao PT — na lista estavam também integrantes do PCdoB e da CUT —, foi chamado ao prédio da Embaixada de Cuba em Brasília para uma reunião com o embaixador Carlos Zamora Rodríguez. Organizado pelo conselheiro político da embaixada, Rafael Hidalgo, o encontro, já no início, intrigou os convidados pela ausência dos protocolos oficiais: os participantes foram convocados de última hora, por telefone, e orientados a não dizer os nomes, mas apenas as entidades e os partidos que representavam, durante a reunião. Quando todos já estavam acomodados nas velhas cadeiras da embaixada - uma das poucas coisas em perfeito estado no prédio é o quadro de Fidel Castro pendurado na recepção —, a figura grisalha de Rodríguez, em um terno azul-turquesa-escuro, apareceu no hall principal, falando ao celular. Já com o aparelho desligado, foi direto ao assunto. Os militantes de esquerda estavam ali, segundo ele, para ajudar o regime cubano a colocar nas ruas uma ofensiva de "contrainformação" para desmascarar" Yoani Sánchez — "uma mercenária, financiada pelo governo dos Estados Unidos para trabalhar contra a Revolução Cubana, contra o povo, contra os trabalhadores".

As palavras do embaixador foram ouvidas em respeitoso silêncio. Rodríguez explicou que a ação precisava ser rápida e só seria bem-sucedida se contasse com o apoio ostensivo das redes veiais ligadas aos partidos e dos blogs comandados pelos petistas e jornalistas amigos do regime. Ainda em silêncio, o diplomata passou a distribuir um dossiê com as informações que deveriam subsidiar a campanha difamatória contra Yoani Sánchez. Cada um dos presentes recebeu um CD com capa diferente, provavelmente para identificar um eventual vazamento. O documento que "incrimina" Yoani Sánchez, ao qual VEJA também teve acesso, é uma produção típica de ditaduras comunistas e acaba jogando mais luz sobre a miséria do regime cubano. Comida, bebida e diversão são transformados em artigos de luxo da "vida mercenária" da blogueira, que usaria sua luta pelas liberdades individuais em Cuba para ganhar dinheiro e, assim, desfrutar mordomias impensáveis para a maioria dos moradores da ilha, como comprar uma lata de cerveja, um cacho de banana ou ir à praia com amigos. Dividido em duas panes, o dossiê tem 235 páginas, reúne fotos pessoais de Yoani Sánchez, montagens e uma lista de seus prêmios internacionais — entre eles o Ortega y Gasset, da Espanha, e o Príncipe Claus, da Holanda, comendas concedidas apenas a destacados defensores da liberdade de expressão.

Apesar do clima de camaradagem entre brasileiros e cubanos, houve protestos. Incomodados com uma das condições do plano — ao difundir as acusações contra a blogueira na internet, ninguém poderia revelar a origem das informações —, alguns militantes preferiram abandonar a reunião ainda no começo. Os que ficaram ouviram um longo relato do embaixador sobre a "verdadeira história de Yoani". Foram quase três horas de explanação, ao longo das quais foi servido café preto e três tipos de biscoito. Por iniciativa de um dos participantes. chegou-se a discutir uma saída alternativa à conspiração arquitetada pela diplomacia cubana. Os movimentos sociais preparariam um manifesto contra a blogueira para ser divulgado durante a visita. A proposta, no entanto, foi descartada por Rodríguez. Na avaliação dele, as entidades demorariam muito para formar um consenso e, a menos de duas semanas da chegada de Yoani Sánchez, "o negócio precisaria ser rápido". "É melhor cada um fazer a sua pane", orientou o embaixador, segundo relato de um dos participantes do encontro.

A ação conta com ingredientes ainda mais ousados. Além de distribuírem o dossiê e montarem a estratégia para assassinar a reputação de Yoani Sánchez, os cubanos se encarregarão de outra investida: seguir os passos da blogueira desde o instante em que ela pisar em território brasileiro, 24 horas todos os dias. A revelação foi feita pelo próprio Carlos Zamora Rodríguez. Segundo ele, o governo dos irmãos Castro ainda não sabe ao ceno o que está por trás da visita de Yoani ao Brasil, mas pretende descobrir. Para isso, entrará em ação o G2. o serviço secreto cubano, que vai monitorar cada passo da blogueira e de seus colaboradores durante a viagem. O embaixador não explicou como isso será feito, já que a presença de espiões de Cuba seria inconcebível, um atentado à soberania do Brasil, por mais simpáticas e próximas que sejam as relações entre os dois países. Relações, aliás, que ficam mais explícitas quando se descobre a identidade de alguns dos presentes à reunião.

Um dos mais ativos e entusiasmados participantes do encontro clandestino na embaixada cubana chama-se Ricardo Poppi Martins. Ele passaria despercebido entre os militantes, não fosse sua proximidade com um dos ministros mais poderosos do governo da presidente Dilma Rousseff. Subordinado ao chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, Poppi, além de militante do PT, é coordenador-geral de Novas Mídias do ministério. Ele participou da reunião do começo ao fim, ouviu os planos de espionagem e conspiração do embaixador cubano e também levou embora o CD com o dossiê contra a blogueira. Poppi Martins trabalha com o ministro Gilberto Carvalho desde o início do governo Dilma e recebe cerca de 6 800 reais por mês. Estava em pleno horário de expediente quando foi chamado a participar da conspiração na embaixada cubana. Suas relações com o regime castrista são bastante intensas. Um dia após a reunião, ele viajou para Havana com todas as despesas pagas pelo governo brasileiro. Foi participar de um encontro promovido pela ditadura cubana sobre técnicas de "ciberguerra" e "novas formas de comunicação de rede e batalhas políticas".

A viagem do representante do governo brasileiro só termina nesta segunda-feira, mas o manifesto produzido no encontro já estava disponível nos sites cubanos na semana passada. Entre as resoluções finais aprovadas, constam "o apoio às reivindicações de Cuba contra as restrições para acessar serviços de computador e internet, junto a autoridades e empresas nos Estados Unidos", e "a solidariedade de todos com a Revolução Bolivariana e o presidente Hugo Chávez, diante das

campanhas de mídia e da ação desestabilizadora dos inimigos do processo revolucionário na Venezuela". Poppi, portanto, foi a Cuba em missão oficial, com as despesas pagas pelo contribuinte, para, segundo a pauta disponibilizada pelos próprios organizadores do evento, apoiar ditaduras e aprender a usar a internet para destruir reputações de quem não pensa como ele, exatamente como planejam fazer com a blogueira Yoani Sánchez.

O servidor do Palácio do Planalto não foi localizado. A Secretaria-Geral da Presidência informou que desconhece a sua participação na reunião com o embaixador e confirma que Poppi realmente esteve na representação diplomática cubana em 6 de fevereiro, mas para "trocar informações" sobre a viagem que faria uma semana depois. Em relação à expedição a Havana, a secretaria entendeu ser de interesse da administração pública enviar um representante para "conhecer as experiências trocadas no seminário e aportar a experiência brasileira na área". Já o conselheiro político da embaixada cubana, Rafael Hidalgo, também se apressou em negar o encontro: "Não, não, não. Não aconteceu nenhuma reunião nesse sentido (Yoani)". O embaixador Carlos Rodriguez não respondeu às perguntas enviadas pela reportagem. Procurado, o PT preferiu manter silêncio sobre o caso. Como nas ditaduras, a transparência é apenas um detalhe.

Não é a primeira vez que as relações umbilicais do PT com o regime dos irmãos Castro produzem uma situação ilegal ou vergonhosa. Em novembro de 2005, VEJA revelou que dólares do regime cubano, acondicionados em caixas de bebida, haviam circulado por Brasília e Campinas até chegar ao comitê eleitoral de Lula em São Paulo. Na ocasião, dois ex-auxiliares do então ministro Antonio Palocci confirmaram a existência de uma operação para levar ao comitê eleitoral de Lula 3 milhões de dólares vindos de Cuba. Anos mais tarde, em 2007, o governo de Lula, recusando-se a ajudar refugiados, devolveu ao regime dos irmãos Castro os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, que haviam se desligado da delegação durante os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Os atletas tentavam escapar da ditadura cubana, mas o governo brasileiro não lhes deu a mínima chance. A decisão foi servil, desumana, mas legal — ao contrário da situação que se passou em Brasília. A Convenção de Viena estabelece que um embaixador pode atuar livremente em um país estrangeiro desde que não realize atos políticos para defender seus interesses nem interfira em assuntos internos. Diz o embaixador Rubens Barbosa: "Um diplomata pode receber quem quer que seja, mas não pode ter atuação política, não pode promover reuniões públicas para defender isto ou aquilo, não pode participar de reuniões partidárias". Cabe ao governo brasileiro avaliar se esses princípios valem também para os representantes de Cuba.

Por Robson Bonin

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