domingo, 3 de fevereiro de 2013

PF: patrulheiros achacavam caminhões da Ceasa




Motoristas tinham que pagar propina para ser liberados; após denúncia, comerciantes foram ameaçados

Uma das maiores centrais de abastecimento do Brasil, com movimentação diária de 500 caminhões de várias partes do país transportando alimentos, a Ceasa, em Irajá, sofreu ataques sistemáticos de policiais rodoviários federais do Rio, integrantes de uma quadrilha que cobra propinas para liberar veículos de carga na rodovias do estado. É o que revela um relatório da Polícia Federal, que investigou o grupo nos últimos três anos, como noticiou O GLOBO ontem. Os principais alvos da quadrilha eram caminhoneiros que vinham de Minas Gerais pela BR-040 (Rio-Juiz de Fora). Os veículos eram monitorados por patrulheiros, parados e só liberados após o pagamento de propina.

- Os policiais rodoviários tocavam o terror nas estradas que levam à Ceasa. Exigiam dos motoristas o que eles tivessem no bolso para liberar o veículo, mesmo com a documentação em dia - disse um comerciante, sem se identificar.

A direção da Associação Comercial dos Produtores da Ceasa de Irajá decidiu procurar a corregedoria da Polícia Rodoviária Federal para fazer a denúncia. O caso teria vazado, e os diretores da associação passaram a ser ameaçados de morte. Procurada, a associação não quis falar.

Interceptações telefônicas dos envolvidos, autorizadas pela Justiça, revelaram que a denúncia à corregedoria da PRF repercutiu entre os patrulheiros, que demonstraram medo de estar sendo grampeados. A PF concluiu que, na BR-040, os policiais rodoviários "instituíram um verdadeiro pedágio paralelo", com o livre acesso à rodovia sendo "controlado por esse bando armado e fardado".

A PF investiga cerca de 80 policiais rodoviários (número correspondente a quase 1/7 do total de 600 agentes da corporação no estado). Com a ajuda de policiais civis e militares, eles cobram propinas regulares, numa espécie de mensalão, de empresários e caminhoneiros, para que possam circular livremente nas rodovias do estado, com qualquer tipo de carga. Ao todo, mais de cem pessoas foram identificadas e denunciadas à Justiça Federal e ao MP Federal. O caso está em segredo de Justiça.

O dinheiro recolhido com a cobrança de propina aparece na variação patrimonial dos investigados. Em média, um patrulheiro recebe salário de cerca de R$ 10 mil. Laudos de peritos da PF concluíram que há movimentação atípica nas contas-correntes dos acusados, em comparação com a declaração de bens apresentadas à Receita Federal por eles. Um perito escreveu: "É de se salientar que a movimentação bancária foi maior que o dobro dos rendimentos declarados".

O secretário de Segurança José Mariano Beltrame disse que acompanha as investigações e que, quando o caso sair do segredo de Justiça, tomará "as medidas cabíveis com relação aos policiais militares e civis envolvidos". Em nota, o Sindicato dos Policiais Rodoviários Federais no Rio criticou o vazamento das investigações, mas ressaltou não apoiar qualquer desvio de conduta.

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