quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sob escolta fora de Cuba






Após agressões, Yoani tem proteção policial para debater liberdade de expressão no Brasil

Feira de Santana (BA) Ela saiu de Havana em busca de liberdade para dizer ao mundo o que pensa do regime dos irmãos Castro. Em Feira de Santana, porém, Yoani Sánchez sofreu restrições. Não de censura, como em Cuba, mas físicas, tamanha a força com que foram feitos protestos por grupos de esquerda ligados a alas do PCdoB e do PT, além do movimento estudantil local. A ponto de a própria blogueira reconhecer que passou por uma "situação de risco físico", antes do cancelamento da apresentação do filme "Conexão Cuba-Honduras", na noite de anteontem. À comitiva, 14 soldados foram incorporados.

Ontem, uma visitante cercada por seguranças, com direito à escolta armada, cancelou atividades pela manhã, e redobrou os cuidados para o debate público, que ocorreu à noite.

- Conversei com os manifestantes e disse que, se precisar, usaremos a força - afirmou o homem que deu o sinal verde para que a blogueira entrasse, pela porta dos fundos, no auditório Olimpo, do grupo educacional Nobre, que recebeu 2 mil pessoas para o último compromisso de Yoani na Bahia. Lá, os simpatizantes da blogueira estavam em maioria em relação aos defensores do regime castrista. O debate foi quente, com alternância entre vaias e aplausos.

Yoani fez uma rápida apresentação e depois respondeu a perguntas da plateia. Com cartazes dizendo que Yoani era persona non grata e que tinha apoio da imprensa brasileira, manifestantes questionaram por que ela não critica os EUA. A dissidente respondeu que vive em Cuba e se preocupa mais com os problemas da ilha.

- A Yoani representa a alienação e o sistema capitalista - afirmou o estudante secundarista Victor Aicau, de 18 anos.

A sexóloga Ozana Barreto divergiu:

- No Brasil, com tanta podridão política, não vi nenhuma manifestação sobre mensalão (dos ativistas que defendem Castro).

Mais cedo, Yoani foi à Câmara dos Diretores Lojistas, sempre escoltada por PMs. Como o evento era fechado, os manifestantes não apareceram. As visitas agendadas a um museu e a um mercado de artesanato foram canceladas. A organização da viagem argumentou que foi por falta de tempo.

- A preocupação e a tensão aumentaram muito. Ficamos extremamente preocupados. Agora temos mais seguranças particulares. São quatro (ontem) - disse César Oliveira, proprietário do jornal "Tribuna Feirense" e um dos integrantes do grupo que convidou a cubana para a cidade.

Depois do almoço, ela decidiu visitar o Centro de Abastecimento da cidade, onde há uma feira de artesanato. E, pela primeira vez, sentiu o calor do simpatizantes, com direito à tietagem de quem a reconheceu durante os 20 minutos em que ficou no local. Hoje, ela parte para Brasília, onde participa de debate na Câmara dos Deputados.


no blog, dissidente responde a manifestantes

No blog Generación Y, Yoani comentou os atos de partidários do regime e lembrou que o primeiro ato de repúdio que viu foi quando tinha cinco anos, no solar onde morava. Anos depois, entendeu que era uma violência contra alguém que queria emigrar. "O piquete de extremistas que impediu a projeção do filme de Dado Galvão em Feira de Santana era algo mais que uma soma de adeptos incondicionais ao governo cubano. Todos tinham, por exemplo, o mesmo documento - impresso a cores - com mentiras sobre mim", escreveu.

Segundo ela, os manifestantes gritavam palavras de ordem "que não se usam nem mais em Cuba". A blogueira relata que, com a ajuda do senador petista Eduardo Suplicy, conseguiu começar a falar. "Eles queriam me linchar, e eu, conversar", conta Yoani.

Sobre o tumulto de ontem, ela ressaltou que nada foi surpresa e que já havia sido ameaçada por sites do governo cubano de que receberia uma resposta contra sua iniciativa de escrever o blog e sair do país:

- Meu governo trabalha sempre com métodos muito sujos contra adversários. Se fosse fazer uma antologia de acusações contra mim, teria mais de mil páginas. Por sorte, não me afeto psicologicamente. Mas é difícil.

Por Flávio Tabak - Enviado especial

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