sexta-feira, 12 de abril de 2013

Leilão de cães da PM atrai interessados




No centro da polêmica entre ativistas e PM, cachorros dispensados do serviço militar viram atração no canil da corporação, onde vários interessados foram conhecê-los


Jefferson da Fonseca Coutinho - Estado de Minas

Anna França viu em Naruto o companheiro ideal para suprir o lugar deixado pela morte do cão Bruce. 
A menina pretende usar suas economias para arrematar o labrador

Enquanto ativistas de várias partes do Brasil se movimentam para impedir o pregão de cães policiais na próxima terça-feira – defendendo soluções como a do Rio de Janeiro, onde animais dispensados do serviço são doados preferencialmente aos militares com que trabalham – o canil da Polícia Militar de Minas Gerais virou atração para famílias inteiras, interessadas nos animais. Para o coronel reformado Eli Morais, de 63, não poderia haver lugar melhor para que a neta Anna Palméria Santilhana de Souza Morais França, de 10, encontrasse um substituto para seu cão Bruce, morto recentemente, vítima de câncer.

O militar, na reserva desde 1995, levou a família ao Bairro Saudade, na Região Leste de Belo Horizonte, para conhecer os cães que vão a leilão. “Vamos fazer um lance e esperar que dê certo”, diz. Desde o ano passado, Anna junta dinheiro para obter dois cães de boa procedência. “A escola ofereceu viagem de passeio por R$ 947 e ela decidiu não ir, para guardar o dinheiro”, revela a mãe, Mirna Flávia de Souza Morais, de 32.


A psicóloga, feliz, assiste às trocas de carinho da filha com o labrador Naruto, de cor chocolate, moleque que só ele. Mirna, como os ativistas do Movimento Mineiro pelos Direitos Animais (MMDA), quer o melhor para os cães. No entanto, não vê problema algum no leilão. “É simbólico e dá transparência ao processo de encaminhamento dos cães. Dá oportunidade a toda a sociedade”, considera. Sabendo que a concorrência promete ser acirrada, além de Naruto, a família vai batalhar também pelo pastor Odim e pela labrador Alma. 

“Hoje, o dia todo foi assim. Muitas famílias vieram conhecer os cães para participar do leilão”, comenta o comandante da Companhia de Policiamento com Cães, major Enos Machado. O oficial mostra-se satisfeito com os “visitantes de boa intenção”, que têm condições de oferecer um bom lar para os candidatos a policiais de quatro patas dispensados do serviço militar. “Só quem gosta muito vem ver os cães e participa”, diz. 

DEBATE

A matéria publicada pelo Estado de Minas de ontem sobre o leilão dos animais foi assunto dos mais comentados em blogs especializados e em redes sociais. Graça Leal, do site Adoção BH, arrebata seguidores com a ideia de que ativistas se mobilizem para arrematar os cães e levá-los à “adoção responsável”, caso o leilão não seja impedido. A ativista ressalta a preocupação com os cães levados à reprodução abusiva por parte de “pessoas inescrupulosas”. Só em Belo Horizonte são mais de 50 grupos organizados atentos ao leilão de terça-feira.

Sérgio Dourado escreveu: “São animais que prestaram serviços para a polícia e para a sociedade mineira, deveriam ser mais respeitados e não tratados como simples objeto de leilão”. Marilene Estanislau recorre a dito popular para comentar: “‘Quanto mais conheço as pessoas, mais admiro os cães’. Eu tenho um bulldog inglês e ficaria feliz em adotar um desses aí”. 

Para Eduardo Cosso, “o cão prestador de serviços à PM é um bem público, e como tal, o procedimento de leilão é um dever preconizado pelo Estado”. No blog Bichos de Companhia, Janine Horta, mesmo contra a venda de animais, considera que o leilão pela PM pode ajudar a selecionar o perfil dos interessados. Contudo, como são animais de raça e guarda, teme que possam passar a viver em lotes vagos, depósitos de construção ou oficinas mecânicas, e, com isso, “isolados, sozinhos, sem cuidados e afeto”.


No Rio, animais ficam com PMs

Diferentemente de Minas, no Batalhão de Ações com Cães (BAC) do Rio de Janeiro os animais dispensados são doados prioritariamente aos seus condutores. A unidade especializada ocupa os três primeiros lugares da categoria no Sistema Integrado de Metas e Acompanhamentos de Resultados, em premiação da Secretaria de Estado de Segurança fluminense. Atualmente com 78 cães, o BAC prevê quadro com 160 animais policiais em 2014 – muitos vindos da França. 

O serviço de cães da Polícia Militar do Rio de Janeiro foi criado em 1955. Ganhou status de batalhão a partir da criação do Comando de Operações Especiais (COE), em 2010. “Os cães são uma ferramenta importantíssima para desbaratar muitas quadrilhas”, ressalta o tenente-coronel Marcelo Nogueira, de 45 anos. O oficial, com 24 anos de polícia, destaca o trabalho de pesquisa da unidade, com intercâmbio na América Latina e na Europa.

Ainda que sejam patrimônio do estado, no BAC é natural que os cães, depois de aposentados, fiquem com os companheiros de serviço. No trabalho ao lado dos policiais, além de localizarem drogas e armamentos, os animais atuam também em outras empreitadas. Eles participam de intervenções táticas e resgate de reféns com o Batalhão de Operações Especiais (Bope), controle de distúrbios ao lado do Batalhão de Choque e busca e salvamento de pessoas perdidas ou soterradas com a unidade aérea móvel.

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